Covid-19: Resposta deve dar prioridade às desigualdades

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Risco de infeção em lares é maior.

O epidemiologista Henrique barros defendeu hoje que a resposta à pandemia de covid-19 deve dar prioridade às desigualdades, dando como exemplo as consequências nos lares, onde o risco de infeção nos idosos e trabalhadores sempre foi maior.

Na intervenção que fez na reunião de peritos para fazer o ponto da situação epidemiológica da covid-19 em Portugal, o especialista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto deixou cinco lições que devem ser aprendidas nestes dois anos de pandemia, a primeira das quais a necessidade de a resposta ter de dar prioridade às desigualdades.

Sublinhando que estas cinco lições resultam de um consenso de especialistas da associação de escolas de saúde pública europeias, Henrique Barros disse, por exemplo, que as probabilidades de infeção nos trabalhadores dos lares sempre foram o dobro das probabilidades nas pessoas que estavam nas suas casas.

“É preciso olhar para este tipo de desigualdades”, insistiu.

A segunda lição apresentada é a necessidade de atualizar o impacto da vacinação, que “preveniu mais de um milhão de infeções, dois milhões de dias de internamento, 130.000 dias de internamento em cuidados intensivos e 12 mil óbitos”.

“As vacinas foram centrais, mas podem não ser suficientes”, afirmou o especialista, sublinhando a importância de continuar a atualizar o impacto da vacinação, sobretudo pela possibilidade de fuga de alguma estirpe à proteção da vacina.

A este nível, Henrique Barros alertou ainda a necessidade de ultrapassar a desigualdade no acesso às vacinas a nível mundial.

Para o especialista, “não há evidência (prova) cientifica para cortar determinada idade à vacinação” e “havendo vacinas disponíveis nada justifica que não se possa vacinar qualquer que seja a idade”.

O especialista sublinhou ainda a necessidade de responsabilização de cada um, afirmando que “as pessoas quando estão doentes devem ficar em casa” e que é preciso manter cuidados como a lavagem de mãos, a distância física e o uso de mascara, sobretudo com sintomas.

A terceira lição apontada foi o facto de as decisões transparentes e informadas por prova científica gerarem confiança da população e a quarta a necessidade de manter a vigilância.

“A infeção veio, está cá e transformou-se em infeção com uma sazonalidade óbvia. Temos de estar preparados para responder e minimizar o impacto e os esforços de resposta podem ser desenhados com o que aprendemos”, afirmou o especialista, que sublinhou a necessidade de acompanhar a chamada ‘long covid’ (efeitos prolongados na saúde deixados pela infeção).

A última lição apontada por Henrique Barros foi a necessidade de olhar para todos os componentes do excesso de mortalidade.

“A pandemia não será resolvida se apenas nos centrarmos na epidemia”, afirmou, frisando que com a pandemia não podia deixar de haver um excesso de mortalidade e que, em Portugal, há um peso associado ao envelhecimento da população que deve ser tido em conta.

“Há uma fração de pessoas que morre a mais porque à medida que os anos passam o prolongar a vida vai-se pagando com mortes, sem substituição de gerações”, concluiu.