“Encontrei na representação um prazer que nunca tinha sentido em lugar nenhum”

“Encontrei na representação um prazer que nunca tinha sentido em lugar nenhum”
© Record TV

Hylka Maria foi a convidada de honra do podcast ‘Fora de Série’, apresentado por Ana Carolina Cury.

Durante a conversa foram abordados vários mistérios da personagem ‘Kayla’, a que dá vida na superprodução ‘Reis’, da Record TV.

A tua personagem, ‘Kayla’, está a dar muito que falar junto do público…
Sim. É uma personagem que conduz a maioria dos conflitos. Ela passeia por muitos ‘núcleos’ (israelitas, filisteus…), sempre com um plano. Ela vai semeando a discórdia e conflitos até chegar ao que ela realmente deseja.

Tens uma trajetória bonita na Record TV. Tiveste presente em ‘Gênesis’, a interpretar a personagem ‘Hagar’, uma mulher muito forte e impactante. De onde é que surgiu a tua ligação com o teatro?
Comecei como modelo infantil, na verdade. Tinha 8/9 anos e tirava fotografias para lojas infantis, fazia desfiles, entre outros trabalhos. As agências começaram a agendar-me para testes de novas novelas. Encontrei na representação um prazer que nunca tinha sentido em lugar nenhum. A minha mãe inscreveu-me em cursos de interpretação e comecei a fazer teatro infantil. Nessa altura, apercebi-me que gostava realmente destes trabalhos e fiz vários seguidos. Em 2018/2019 a Record TV descobriu-me e chamaram-me. As minhas personagens têm sempre uma ‘capa’ de vilã – e isso é muito curioso. [risos]

Eu nunca pensei estar noutro lugar, esta profissão escolheu-me

‘Hagar’ foi uma personagem ‘durona’, certo?
A minha primeira leitura foi: “Vou dar vida a um ser humano que tem tantas ‘capas’, tantas cores, tal como nós”. Eu gosto de colocar isso nas personagens. É muita responsabilidade dar vida a personagens bíblicas, porque é uma obra de literatura que o público já conhece, então todos já sabem como é que a personagem começa, se desenvolve e como morre. Às vezes, é muito engraçado, porque estou a trabalhar para um público extremamente conhecedor daquilo que eu digo. É um grande desafio, porque trata-se do livro mais importante e conhecido à face da terra.

Como descreves o perfil da ‘Kayla’?
A ‘Kayla’ revela-se aos poucos, por isso, o público vai começar a percebê-la ao longo dos episódios. Ela é uma mulher muito inteligente, quando as pessoas ‘chegam com a farinha’ ela já está com o ‘bolo pronto’. [risos] Ela tem uma estratégia muito bem planeada e estruturada – seja a curto, médio ou longo prazo. A ‘Kayla’ sabe o que ela quer e, por isso, vai arranjando formas para conseguir atingir as suas metas. A mãe faleceu quando ela era muito pequena e por causa do seu assassinato ela sente dor, sentimento de injustiça e muito rancor. Por não ter tido inteligência emocional, ela traça um destino com o propósito de destruir Israel.

A tua personagem tem questões humanas muito presentes e em várias situações é visível a sua dor e humanidade. Concordas?
Há uma grande diferença entre ‘Hagar’ e ‘Kayla’. A ‘Hagar’ era muito transparente, tudo o que ela sentia transparecia para todos. A ‘Kayla’, contrariamente, sente muita dor e rancor, mas ela sabe ‘camuflar’ isso de forma a não atrapalhar os planos e relações que estabelece. Ela tem um filtro e uma máscara diferente para cada pessoa, há personagens que nunca viram a verdadeira ‘Kayla’ e outras que já viram o seu lado mais feio. Com o seu pai ela é muito transparente, mas com a grande maioria das pessoas não. Para mim enquanto atriz, o maior desafio é estabelecer essas relações e deixar claro para o público o que ela sente por cada pessoa.

Ela tem um forte sentimento de vingança. De que forma é que isso influencia a tua ‘vida real’?
Eu própria tenho uma dificuldade muito grande em lidar com o perdão, com pessoas que me magoaram. As minhas personagens ‘libertam’ esse lado de mim. Muitas vezes digo uma fala de uma minha personagem que poderia ser realmente minha, por me identificar demasiado com ela.

Consideras que qualquer ser humano pode ser um ‘vilão’?
Qualquer ser humano pode ser uma ‘Kayla’. Nós não sabemos quem nós somos, depende muito da situação em que estamos inseridos. Eu não sei ainda quem eu sou. A ‘Kayla’ foi colocada nessa situação, o que acaba por ser uma lição para nós. É uma autorreflexão, porque eu vejo o quanto a ‘Kayla’ está focada na vingança – o que fez com que ficasse estagnada nesse momento da vida dela. Isto deixa-nos a pensar que não devemos julgar os outros.

Como lidas com a personalidade da ‘Kayla’?
Quando perguntei como iria ser a minha personagem responderam-me que ela ia ser a grande vilã da temporada. Eu pensei que não ia guardar as dores dela, queria muito entender de onde ela veio, o que ela dizia e o que ela sentia, para poder dar-lhe vida. Enquanto intérprete, eu não posso julgar a minha personagem, porque se o fizer depois não a consigo interpretar.

De toda a tua experiência na séria ‘Reis’, ficaste com algo por refletir?
É muito bom estar em contacto com a história desta superprodução. Para ser sincera, eu nunca li a bíblia, então, há histórias que eu não conhecia. Há pessoas como eu que só vão ter acesso a essas histórias por causa da série e da minha personagem. Infelizmente, ainda há uma percentagem grande de pessoas que não sabem ler no Brasil, mas têm televisão em casa. De alguma forma conseguimos passar conhecimento a essas pessoas, isso é muito bom. O conhecimento, a cultura e a arte está a chegar a todo o mundo.