Análise: Finlândia e Suécia a caminho da NATO

Análise: Finlândia e Suécia a caminho da NATO
REUTERS/Dado Ruvic

Eventual entrada dos dois países representa o fim de uma neutralidade histórica e pode levar a efeitos internos complicados a longo prazo. A Turquia é uma chave importante no jogo diplomático, segundo especialista.

Finlândia e Suécia parecem bem encaminhadas no objetivo de entrar na NATO mas o caminho pode ser um pouco mais sinuoso do que aparentava.

A Finlândia deu o pontapé de partida e adiantou-se no processo, com o presidente e a primeira-ministra do país a anunciarem a intenção de integrar a aliança militar atlântica.

Uma decisão rápida, compreendida à luz do que é a geografia. A Finlândia partilha cerca de 1300 quilómetros de fronteira com a Rússia e após as primeiras ameaças de Kremlin, o país parece não querer arriscar ser apanhado desprevenido. Já a vizinha Suécia formalizou o pedido esta segunda-feira, através do anúncio da primeira-ministra sueca Magdalena Andersson.  

Magdalena Andersson
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Duas decisões históricas que colocam fim a décadas de neutralidade. 

Entrada pouco facilitada

Existe um ator político que pode fazer estragos nas intenções políticas da Finlândia e consequentemente da Suécia. A Turquia foi um dos estados que mostrou reservas à entrada dos países na NATO, cuja adesão tem de ser aprovada por unanimidade.

O tema foi discutido durante este fim de semana e os ministros dos negócios estrangeiros dos países da aliança atlântica mostram-se confiantes num entendimento. Mas a Turquia de Erdogan pode ser imprevisível e tornar-se num ator político de grande relevância no jogo diplomático.

“Do ponto de vista do jogo diplomático, acho que a Turquia será o dado mais relevante”, explica Tiago Ferreira Lopes, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense. O país foi desde o início um mediador do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, tendo promovido e mediado reuniões presenciais entre os dois países, um estatuto que poderá mudar caso avance com uma objeção à entrada da Finlândia e da Suécia na NATO.

Tayyip Erdogan
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“A Turquia agora poderá, para a Ucrânia, deixar de ser um mediador viável, porque bloquear a entrada da Suécia e da Finlândia pode ser visto por Kiev como uma atitude pró-russa. Não que o seja, até porque Erdogan foi muito claro nas razões que deu. Suécia e Finlândia são pró-movimento curdo e a Turquia é contra”, afirmou o professor, explicando como a saída da Turquia como possível mediador poderá abrir espaço para uma “confusão diplomática” da qual apenas um estado poderia beneficiar, e não seria a Rússia.

“O único ator diplomático que poderá tirar vantagens desta confusão diplomática poderá ser a França. Macron tem tentado aparecer como mediador em vários momentos e, se de facto Kiev vier a condenar a posição da Turquia e considerar que a Turquia não é um mediador válido, poderá dessa forma abrir espaço para França aparecer como mediador e dessa forma Macron ganhar espaço internacional, numa fase em que a Alemanha tem aparecido muito pouco” explicou Tiago Ferreira Lopes.

Os efeitos imediatos e as ameaças da Rússia

Quem não ficou feliz com a eventual entrada de Suécia e Finlândia na NATO foi, naturalmente, a Rússia que até chamou novamente a questão nuclear para a equação política. Esta segunda-feira, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Riabkov declarou que a entrada dos dois países na NATO constitui “um grave erro adicional cujas consequências podem ser consideráveis”.

“As ameaças da Rússia vão continuar. É obvio que a ameaça nuclear é uma ameaça velada, mas a verdade é que fica no ar. Não ficaria surpreso se nas próximas semanas víssemos violações mais sistemáticas do espaço aéreo da Finlândia”, explica Tiago Ferreira Lopes.

O tempo urge e apesar das intenções dos dois países o calendário não é favorável e mesmo no cenário de uma votação unânime que permitisse a adesão da Finlândia e da Suécia, o processo ainda irá demorar vários meses o que poderá aumentar o nervosismo naquelas regiões.

“Até à Finlândia entrar na NATO ela não entrou e, por isso, o artigo 5.º não é ativável. É muito provável que comecemos a ver no mar do Norte e no Báltico a Rússia a passear os seus navios, literalmente a mostrar o tipo de equipamento militar, os misseis que tem e que poderiam ser usados. A lógica é a intimidação por demonstração da capacidade bélica”, afirmou um professor.

Uma ameaça que não se fica pelas questões militares e que se poderá estender à parte económica. Na passada sexta-feira foi o anunciado o corte de fornecimento de eletricidade da Rússia para a Finlândia, algo que não deverá ficar por aqui, tal como explica Tiago Ferreira Lopes: “não ficaria surpreso se a Rússia no próximo de pacote de sanções que vai preparar fizesse boicote a mais alguns produtos de exportação entre os dois países. É muito provável que haja aqui um bloqueio e que as relações económicas entre os dois países, que eram robustas, até porque são estados vizinhos, sofram mais um revés”.

Jogo interno e consequências a longo-prazo

As decisões de aderir à NATO parecem ser suportadas pela opinião pública, mais na Finlândia do que na Suécia, onde muitos permanecem na dúvida se esta será ou não a melhor decisão. Para Tiago Ferreira Lopes, esta decisão “é história e é precipitada, fazendo pouco sentido do ponto de vista dos efeitos a longo prazo”.

O especialista acredita que esta é uma decisão que tem por base as sondagens num momento de conflito cujos resultados poderão ser dúbios, exatamente pelo momento que estamos a atravessar.

“Os decisores políticos decidem sobre o presente, mas têm de pensar que essas decisões têm efeitos a médio, longo prazo. Na Finlândia, o grande argumento que está em cima da mesa é que as sondagens de opinião pública deram agora 76% população favorável à entrada na NATO, quando nos últimos dez anos, o pico de população a favor de entrada na NATO foi apenas de 30%. Estamos a falar de 46% de acréscimento em situação de conflito. Quando o conflito terminar, é altamente espectável que estas percentagens voltem a descer”, explica.

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Além disso, existe ainda a questão económica. Os países nórdicos são conhecidos pelas políticas de contas certas e rigidez orçamental. A adesão à NATO acarreta outro tipo de despesas e cedências.

“A Finlândia gasta neste momento 1,53% do seu PIB com defesa. Ao abrigo dos acordos de Gales, que a NATO celebrou em 2014, a Finlândia fica obrigada a subir estes gastos para 2%. Meio por cento de PIB é um orçamento significativo tendo em conta um outro dado. De acordo com a OCDE, nos últimos dois e para próximos dois anos, ou seja, neste quadriénio, a Finlândia está numa fase de estagnação económica e tem aumentado a sua divida publica. Entrando para a NATO, os decisores políticos vão ter escolhas muito difíceis, como – vamos aumentar na defesa e vamos tirar ou à educação, ou a saúde, ou as pensões. Num eventual pós-conflito temos de validar isto na opinião publica. O governo terá que de justificar à opinião publica que temos uma nova frota de carros blindados e não vamos abrir as quatro escolas que iríamos abrir. Este é o custo”, afirma.

Na opinião do académico, uma eventual crise ou cortes financeiros em setores estratégicos da sociedade podem gerar mal-estar nestes países, beneficiando o aparecimento e reforço “de partidos populistas e eurocéticos” que podem “complicar o jogo em sede europeia”.