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Jovem morre depois de 112 ignorar queixas

Médico não acreditou na mãe e pediu-lhe para passar o telefone ao filho a morrer, dizendo: "Não te oiço a asfixiar".

8 Novembro, 2019 - 14:25

Virginia Galván
El Mundo

Aitor García Ruiz perdeu a vida a 14 de janeiro de 2018, vítima de uma embolia pulmonar, num hospital em Madrid, Espanha.

Quatro dias antes, a mãe tinha ligado para o serviço de 112 a pedir ajuda, no entanto, os serviços de emergência desvalorizaram as queixas e não enviaram uma ambulância para o jovem de 24 anos.

“Senhora, passe-me o telefone ao seu filho”, disse o médico do 112 que atendeu a chamada de Carmen.

“Mas o meu filho não consegue respirar”, respondeu Carmen Ruiz. O clínico insistiu e a mulher passou ao telefone ao filho.

Numa conferência de imprensa organizada pela Associação de Defesa do Paciente ouviu-se a gravação da primeira chamada, transcrita pelo El Mundo:

Mãe: Olhe, o meu filho levantou-se e ficou tonto. Eu estava na cozinha e ouvi-o a cair
Médico: Sim
Mãe: E começou a suar muito… Agora ficou frio, mas cheio de suores
Médico: Ele está a tomar alguma coisa?
Mãe: Não, não
Médico: Teve um desmaio, então
Mãe: E está… diz que não consegue respirar
Médico: Está bem. Passe-lhe o telefone, por favor
Mãe: A quem? Ao miúdo?
Médico: Claro
Mãe: Não posso, não posso
Médico: Tem que falar com o médico. Tem um telemóvel e ligo-lhe eu?
Mãe: Mas ele não consegue…!
Médico: Minha senhora, se estivesse no hospital com um médico, ele tinha de falar com ele, ou não?
Mãe: Sim, mas você…
Médico: É indiferente se é por telefone ou não, tem de falar com o médico
Mãe: Ele diz que não consegue respirar e que…
Médico: Pronto, está bem, mas preciso de o avaliar. Ele pode precisar de uma ambulância, de um médico…
Mãe: Olha, o médico diz que tens que falar com ele, para ver o que tens

Médico: Diz-me, o que se passa, conta-me
Aitor: Estou a asfixiar…
Médico: Eu não te oiço a asfixiar. Tens estado nervoso com alguma coisa?
Aitor: Não [sem conseguir vocalizar]
Médico: Então, estás a tomar algum medicamento?
Aitor: Não consigo… Estou a asfixiar…
Médico: Passa-me à tua mãe
Aitor: Não consigo
Médico: Passa-me à tua mãe

Mãe: Veja como ele está
Médico: Não, está a respirar perfeitamente. Está em tratamento psiquiátrico?
Mãe: Não, não, nada [ouve-se ao fundo Aitor a gritar: “estou a asfixiar, não aguento!”]
Médico: De nada? Tomou alguma…
Mãe: Não. Olhe, ontem nem saiu nem nada, esteve enfiado em casa o dia todo
Médico: Bem, um médico vai vê-lo. Mas será que não tomou mesmo nada?
Mãe: Não, não
Médico: Algum medicamento ou assim?
Mãe: Não
Médico: Está a respirar perfeitamente, percebe? Respira perfeitamente
Mãe: Mas diz que não consegue respirar
Médico: Ele pode dizer o que quiser, mas respira perfeitamente porque fala perfeitamente, entende?
Mãe: Não sei…
Médico: Sim, respira. Vá, até logo. Parece mais que está sob efeitos de alguma coisa. Não sei. Vamos aí vê-lo

“Quando o meu filho me passou o telefone de volta perdeu a consciência definitivamente. Não voltou a abrir os olhos”, contou a mãe.

Aitor entrou em paragem cardiorrespiratória e quando a ambulância chegou já estava já em morte cerebral.

“O médico disse-nos que passou demasiado tempo sem oxigénio no cérebro”, revelou Carmen. Descobriu-se depois que um trombo num pulmão provocou-lhe uma embolia.

Aitor passou 23 minutos sem irrigação cerebral até que chegou a ambulância, que o primeiro médico do 112 não ativou.

“Não podemos ter a certeza de que o meu filho poderia ter sobrevivido, mas é certo que perdeu a oportunidade de viver”, disse o pai do jovem, Bartoloméu Ruiz.

O Serviço de Emergências de Madrid, o Suma 112, está a ser julgado em tribunal, acusado de negligência e o casal reclama 175 mil euros de indemnização à Comunidade de Madrid,  a quem pertence o Suma 112.

“Era o meu único filho. Um miúdo estupendo, carinhoso, trabalhador, muito bom, que jamais arranjou um problema. Não nos move o dinheiro. Queremos que mudem os protocolos, para que algo assim não se repita, porque nada nos devolve o nosso filho”, desabafou Carmen.

Oiça a chamada para o 112.

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