Rússia bombardeia base a 20 quilómetros da Polónia

Rússia bombardeia base a 20 quilómetros da Polónia

Ataque de 30 mísseis fez pelo menos 35 mortos e 134 feridos.

A Rússia efetuou ontem o ataque mais próximo de território da NATO desde o início da guerra na Ucrânia, ao bombardear uma base a cerca de 20 quilómetros da Polónia, no dia em que morreu um jornalista norte-americano.

Ao 18.º dia de guerra na Ucrânia, iniciada a 24 de fevereiro, a Rússia bombardeou a base militar de Yavoriv, a menos de 25 quilómetros da fronteira com a Polónia, país membro da NATO, e a cerca de 40 quilómetros da cidade de Lviv, no noroeste da Ucrânia.

O ataque à base foi efetuado, segundo dados preliminares divulgados pelas autoridades ucranianas, por 30 mísseis e terá feito, no mínimo, 35 mortos e 134 feridos. Kiev qualificou o bombardeamento de “ataque terrorista”.

Utilizada como plataforma onde chega parte da ajuda militar entregue à Ucrânia pelos países ocidentais, a base de Yavoriv serviu também, nos últimos anos, como campo de treino para as forças ucranianas sob supervisão de instrutores estrangeiros, principalmente americanos e canadianos.

Segundo o jornal norte-americano The New York Times, a base, conhecida como Centro Internacional para a Manutenção da Paz e Segurança, era também utilizada como centro de treino para os voluntários estrangeiros que se deslocaram até à Ucrânia para participar na Legião Internacional de Defesa Territorial.

Num ‘briefing’, o porta-voz do Ministério da Defesa Russo, Igor Konashenkov, afirmou que “a destruição de mercenários estrangeiros que cheguem ao território da Ucrânia irá continuar”, indicando ainda que o bombardeamento russo terá feito 180 mortes. Os números não foram identificados por fonte independente.

Com o bombardeamento em Yavoriv, a ofensiva militar russa – até agora maioritariamente concentrada no sul, norte e leste ucraniano – operou o seu terceiro ataque dos últimos dias a instalações militares ucranianas no ocidente do país, segundo o porta-voz do Pentágono, John Kirby, o que o levou a considerar que “os russos estão a expandir os seus objetivos militares”.

Em Kiev, os combates continuaram nos arredores, e designadamente no subúrbio estratégico de Irpin, palco de bombardeamentos intensos nos últimos dias. Naquela localidade, um jornalista norte-americano do The New York Times foi morto e um fotógrafo colombiano, vencedor do prémio World Press Photo, foi ferido.

Segundo a agência de notícias AFP, os dois homens foram atingidos enquanto circulavam numa viatura com um civil ucraniano, também ferido.

Em Mariupol, cidade portuária de 500 mil habitantes no sudoeste da Ucrânia, que se encontra cercada por forças russas e sem abastecimento de alimentos e medicamentos, a autarquia anunciou que morreram 2.187 habitantes desde o início do conflito.

Perante uma crise humanitária, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou que a cidade iria receber, ainda hoje, o primeiro carregamento com bens de primeira necessidade. “Está a ser feito tudo o que é necessário para vencer a resistência dos ocupantes”, afirmou.

Com o Comité Internacional da Cruz Vermelha a alertar para o “pior cenário” na cidade e o Papa Francisco a afirmar que Mariupol “se tornou numa cidade mártir na guerra atroz que está a devastar a Ucrânia”, a Turquia pediu ajuda à Rússia para retirar os seus cidadãos da cidade.

No terceiro fim de semana desde o início de guerra na Ucrânia, milhares de pessoas voltaram a manifestar-se em toda a Europa, incluindo em Lisboa, contra a ofensiva militar russa. Na Rússia, as autoridades detiveram mais de 250 protestantes em pelo menos 23 cidades.

Num dia em que o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz disse, em declarações à Lusa, que o conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia só pode terminar “através da via diplomática e de negociações”, um negociador russo afirmou que as conversas entre a Rússia e a Ucrânia estavam a fazer progressos apesar da guerra.

“Se compararmos a posição das duas delegações entre o início das negociações e o momento atual, vemos que há progressos significativos”, disse Leonid Slutski, um membro da delegação russa que se encontrou recentemente com negociadores ucranianos na Bielorrússia.