Especialistas defendem separação entre trotinetes, carros e peões

Especialistas defendem separação entre trotinetes, carros e peões

Especialistas partiram do caso do Porto.

Dois especialistas em geografia e transportes ouvidos pela Lusa, José Rio Fernandes e José Manuel Viegas, defenderam a separação, conceptual e física, entre os automóveis, as trotinetes e peões, partindo do caso do Porto.

“Tratar a trotinete como um automóvel, e remetê-la para a faixa de rodagem do automóvel, não me parece a política mais adequada”, disse à Lusa o geógrafo e professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto José Rio Fernandes.

Questionado acerca dos regulamentos que proíbem o uso das trotinetes de empresas nas Zonas de Acesso Automóvel Condicionado (ZAAC) do Porto, bem como da sua autorização para uso na rede viária do município, Rio Fernandes disse que não lhe “parece mal que a trotinete circule” em ruas pedonais, como as ZAAC.

Já o professor emérito da Universidade de Lisboa José Manuel Viegas sugeriu que, como as ZAAC “são ruas como não têm carros em presença regular, têm uma largura bastante generosa para os peões”, e poderia ser “possível identificar faixas para as trotinetes, dentro dessas ruas”.

O também presidente da consultora TIS recordou o “princípio geral de engenharia de tráfego” em que “não devem coexistir na mesma faixa de rodagem veículos de velocidades muito diferentes”.

“Isso aumenta a probabilidade de colisão, tão simples quanto isso”, disse à Lusa, apontando que, idealmente, uma faixa de perfil transversal deveria ter “largura para peões, depois mais uma zona de largura para bicicletas e trotinetes, mais uma para automóveis, e mais uma para o transporte coletivo”.

Porém, o Porto tem “muitas ruas com menos de seis metros” de largura, o que, segundo José Manuel Viegas, significará que terá de haver umas “ruas onde só passam automóveis e peões para chegar às portas das casas, e outras onde só passam bicicletas, trotinetes e peões”.

“É cómodo? Não é, mas é a cidade que a gente tem. É assim. Também já hoje há ruas onde não podem passar os automóveis, ruas onde não vão os camiões, ruas onde não vão os autocarros”, justificou.

José Rio Fernandes comparou a diferença conceptual face aos patins, considerando que “o olhar deveria ser mais esse” para as trotinetes.

Tanto a trotinete como a bicicleta, acrescentou, “deviam ter uma abertura muito maior, e o automóvel é que devia ser obrigado a ter um comportamento mais de tipo de bicicleta”.

Adicionalmente, “se a trotinete fosse admitida em ruas pedonais, os utilizadores deveriam ter muita atenção porque estão num espaço de peão”, defendeu Rio Fernandes à Lusa.

Para o geógrafo, “o essencial é o comportamento de quem usa a trotinete”, um meio de transporte que, por ser “uma novidade, não é fácil disciplinar”.

“É um modo flexível, muito individual, atinge alguma velocidade e, portanto, está muito propenso a acidentes, usos impróprios numa cidade”, refletiu.

José Manuel Viegas salienta que “a evolução da tecnologia e dos modelos de negócio é mais rápida do que a evolução dos regulamentos”, um pouco por todo o mundo.

“Não podemos exigir para as trotinetes um sistema 100% eficaz, porque também não exigimos para os automóveis”, disse, relativamente à fiscalização das irregularidades.

José Rio Fernandes considera que, com o tempo, “as trotinetes tenderão a ter um uso mais disciplinado, mais regrado, mais socialmente correto”.

Na quinta-feira, o vereador do Urbanismo e Espaço Público da Câmara do Porto, Pedro Baganha, disse aos jornalistas que o fenómeno das trotinetes é “claramente” positivo, mas não pode “prejudicar o elo mais fraco” na circulação urbana, os peões.

O vereador do executivo liderado pelo independente Rui Moreira disse ainda que a autarquia está “internamente a fazer uma reflexão” sobre o tema.