Monkeypox “nunca será uma pandemia”

Monkeypox
REUTERS/Dado Ruvic

Ainda no rescaldo da covid-19 o surto de Monkeypox foi suficiente para fazer soar novamente os alarmes. Especialistas acreditam que dificilmente será uma pandemia global. 

Mas o que é afinal o Monkeypox e que todos conhecemos por varíola dos macacos? É um vírus da mesma família da varíola humana, erradicada na década de 80.

“A varíola humana já não existe, foi erradicada em 1980, é um dos grandes sucessos da medicina, ter erradicado uma doença. As pessoas deixaram de ser vacinadas a partir dessa altura. O Monkeypox é um vírus da mesma família, residual em África, principalmente África Ocidental e Central, que faz surtos muito localizados e com muito menos gravidade. É uma doença muito menos grave do que a varíola (humana)”, explica a virologista Laura Brum, à Record TV.  

Trata-se de uma doença zoonótica, presente na maioria das vezes em roedores e primatas não humanos, que ao serem portadores, podem infetar pessoas. Foi identificada pela primeira vez de 1958, inicialmente em macacos mantidos em cativeiro para fins de investigação e depois em 1970 foi identificada em humanos na República Democrática do Congo.

Os sintomas mais comuns passam pelo surgimento de lesões cutâneas, desde pequenas manchas até lesões com conteúdo líquido. A nível sistémico, podem surgir febre, arrepios, dores de cabeça, musculares ou cansaço.

É, na grande maioria dos casos, uma doença benigna do ponto de vista clínico, sendo que os “casos são pouco graves, sem fatalidade”, explica Laura Brum.

Transmissão através de contacto muito próximo

Em termos de transmissão, podem existir muitas dúvidas, mas os especialistas apontam como principal fator o contacto próximo com pessoas ou animais infetados. Contacto próximo, íntimo e prolongado.

Até agora, os casos confirmados em Portugal são todos em homens que tiveram contacto sexual com outros homens. Mas isso não tem de ser uma característica da doença na sua generalidade mas apenas neste surto especificamente.

“Isso tem a ver com o contexto deste surto. Este surto inicialmente apareceu em homens que fazem sexo com homens e nesse ambiente é que se deram os primeiros casos.

Mas devemos colocar na mesa outras origens e não localizar o vírus apenas a esta comunidade. Ele é transmitido por contacto direto, como é o contacto sexual, por isso encaixa da definição de contacto, mas existem outras formas”, explica a virologista.

O Centro Europeu de Controlo de Doenças Europeu explica que a “transmissão não é fácil” sendo que “a predominância, no surto atual, de casos de Monkeypox em humanos diagnosticados entre homens que fazem sexo com homens, e a natureza das lesões apresentadas em alguns casos, sugerem que a transmissão ocorreu durante a relação sexual”. Desta forma o ECDC acredita que a probabilidade de propagação do Monkeypox em pessoas com múltiplos parceiros sexuais na União Europeia e no Espaço Económico Europeu é “alta”.

O contacto com as lesões cutâneas também pode levar à transmissão da doença tal como o contacto com objetos fortemente contaminados com o vírus, como roupas de cama, banho ou toalhas. “O próprio vestuário que tem as postulas da varíola, pode provocar o contágio”, afirma Laura Brum. Existe ainda a possibilidade de transmissão aérea sobretudo através de gotículas grandes.

A Organização Mundial de Saúde procurou desmistificar a questão, afirmando que esta é uma doença que pode afetar tanto homens como mulheres. “Estigmatizar grupos de pessoas por causa de uma doença nunca é aceitável. Pode ser um obstáculo ao fim de um surto, pois pode levar as pessoas a não procurarem cuidados médicos, e levar a uma propagação não detetada”, afirmou a OMS.

Vacinação

 Se realmente o surto crescer muito, é uma das medidas que está a ser colocada em cima da mesa é vacinar as pessoas”, explica Laura Brum. “A antiga vacina, que deixou de ser administrada, tinha muitas reações secundárias, e era pouco recomendável devido a esses efeitos. A partir de 2015 começaram a surgir novas vacinas, mais modificadas, feitas a partir da Vaccinia, um vírus parecido também com o vírus da varíola, e esse vírus modificado ou atenuado pode ser utilizado como vacina e tem sido usado anteriormente em surtos para os profissionais de saúde que têm tratado estes doentes. E é isso que está neste momento a ser ponderado”.

O Reino Unido já começou a vacinar os contactos mais próximos de casos confirmados de Monkeypox e outros, como os Estados Unidos planeiam fazer o mesmo.

A Organização Mundial de Saúde não acredita porém numa vacinação em massa como solução, uma vez que diz ser possível controlar o surto através de “ferramentas de saúde púbica para uma rápida identificação e isolamento dos casos”

Vamos enfrentar uma nova pandemia?

Até agora foram confirmados em Portugal 39 casos de Monkeypox. Mundialmente, foram detetadas mais de 130 infeções. Números que para os especialistas ainda não significam a existência de uma crise de saúde pública.

“Vamos ver como é a progressão dos casos. Estamos a ver os doentes que chegam ao hospital, estamos a procurar casos. Se estes números não aumentarem muito, será uma coisa controlada”, explica Laura Brum.

Com o aumento de casos surgem também os receios de uma nova pandemia, algo que não será muito plausível. “Isto nunca será uma pandemia. É lógico que as pessoas fazem logo uma comparação. Mas este vírus não dissemina com a facilidade do coronavírus”, confirmou a virologista.