Presidente da República admite números “muito superiores” de abusos no país

Homem que ameaçou Marcelo era conhecido das autoridades
Lusa/ António Pedro Santos
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Marcelo afirmou que número “não parece particularmente elevado face à provável triste realidade”.

O Presidente da República afirmou hoje que o número de casos de abusos de menores validado pela Comissão Independente “não parece particularmente elevado face à provável triste realidade”, admitindo números “muito superiores” no país.

Numa nota publicada no “site” da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa declarou que tomou conhecimento da validação de 424 testemunhos de abusos sexuais na Igreja em Portugal, hoje anunciada pela Igreja Católica, e afirmou esperar que “os casos possam ser rapidamente traduzidos em Justiça”.

“O Presidente da República sublinha, mais uma vez, a importância dos trabalhos desta Comissão, muito embora lamente que não lhe tenham sido efetuados mais testemunhos, pois este número não parece particularmente elevado face à provável triste realidade, quer em Portugal, quer pelo Mundo”, lê-se, na nota divulgada.

Marcelo Rebelo de Sousa acrescentou que “vários relatos falam em números muito superiores em vários países, e infelizmente terá havido também números muito superiores em Portugal”.

“Tal como fez no início de setembro, transmitindo imediatamente à PGR a denúncia que recebeu, continuará a promover e apoiar todos os esforços para que os abusadores sejam responsabilizados e afastados de qualquer situação que possa permitir a reincidência nestes comportamentos, seja no seio da Igreja Católica, ou em qualquer outra situação”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Hoje à tarde, o Presidente da República já tinha comentado o número de testemunhos validado pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, com afirmações que suscitaram críticas de vários quadrantes políticos, nomeadamente do BE, IL, Chega, PAN e Livre.

Marcelo Rebelo de Sousa tinha afirmado não estar surpreendido com as 424 queixas de abusos sexuais contra crianças na Igreja Católica e considerou que não é um número “particularmente elevado” comparado com “milhares de casos” noutros países.

“Significa que estamos perante um universo de pessoas que se relacionou com a Igreja Católica de milhões ou muitas centenas de milhares”, acrescentou o Presidente da República, concluindo: “Haver 400 casos não me parece que seja particularmente elevado, porque noutros países e com horizontes mais pequenos houve milhares de casos”, tinha afirmado Marcelo Rebelo de Sousa,

Na rede social Twitter, o líder parlamentar do BE começou por considerar “um insulto às mais de 400 vítimas” as “miseráveis declarações” do Presidente da República sobre este número de queixas de abusos sexuais na Igreja, defendendo que não esteve “à altura” do cargo.

Já a Iniciativa Liberal, através da sua página oficial, lamentou “profundamente o comportamento do Presidente da República no caso dos abusos sexuais de menores no seio da Igreja”, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa procurou “relativizar” a gravidade do comportamento de vários elementos da Igreja Católica.

Também através do Twitter a porta-voz do PAN, Inês Sousa Real, afirmou que “um caso que fosse era grave, muito grave e repudiável, quanto mais 400!”.

“Fui mal interpretado, mas não percebo porquê”

Marcelo esclareceu depois o que quis dizer sobre os crimes de abuso sexual na Igreja.

“Já percebi que de facto foi mal interpretado o que eu disse, não percebo bem porquê, mas as pessoas têm todo o direito de não entender”, começou por dizer.

De seguida, o Presidente da República fez questão de sublinhar que os crimes de abuso na Igreja são uma “realidade grave” e que “basta haver um caso para ser grave”. Esclareceu ainda que continua a achar 400 casos “pouco” e explica porquê.

“A minha convicção é que são muito mais. Quando acho que os casos são poucos é porque acho que os casos deviam ser mais de acordo com a realidade portuguesa”, explicou.