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É um conceito que há muito deixou de fazer sentido. Hoje em dia, as mulheres estão presentes em todos os segmentos do mercado de trabalho e triunfam em profissões onde antes seria quase impensável encontrá-las. No Dia da Mulher, a ‘Share’ foi descobrir a história de cinco mulheres sem medo de ‘vestir as calças’.

O oceano amanheceu enraivecido naquele dia de fevereiro, esbracejando em ondas de doze metros capazes de amedrontar o mais audaz ‘lobo do mar’. Estavam em alerta vermelho, mas era preciso seguir viagem, rumo a Ponta Delgada, na ilha açoriana de São Miguel.

Ao comando do navio, Susana Fiel estava prestes a viver um verdadeiro pesadelo a bordo. A máquina do leme estava a deixar entrar água e um colega foi à popa fechar uma entrada de ventilação. Nesse instante, o mar esbracejou com mais força. “A pior experiência de todas foi perder um homem no mar. Efetuámos todos os procedimentos estandardizados, as buscas duraram até ao pôr do sol, mas infelizmente não o encontrámos. Tivemos de seguir viagem, pois era um perigo ficarmos ali com aquele mau tempo”, lembra a piloto.

“Dizem que o meu lugar é em casa”

Agora é que são elas!
Susana Fiel | © D.R.

O perfil militarista, revelado nos testes psicotécnicos, e um gostinho especial pelo mar levaram Susana a ingressar na Escola Superior Náutica, depois de uma fratura a ter impedido de concluir as provas na Escola Naval.

Com 35 anos e a exercer funções há nove, nem as reações menos calorosas da família a desmotivaram: “A minha família não percebeu muito bem que curso eu estava a tirar e, quando perceberam, não foi propriamente a melhor reação, pois embarquei nas vésperas de Natal e consideraram que não ia passar o Natal com eles porque não queria”.

Contrariamente aos amigos, que lhe dizem que não seriam capazes de trabalhar no mar, Susana não se imagina fechada num escritório. A bordo e nos portos, nem sempre é fácil evitar piadas e comentários menos agradáveis pelo simples facto de ser mulher: “Discriminação sentimos sempre. Chegaram a dizer-me que os navios eram sujos e me iam sujar o cabelo, como se eu não tomasse banho… Ou que não havia botas para o meu tamanho, eu que calço o 42. Os que se acham engraçados dizem que o meu lugar é em casa com a barriga encostada ao fogão”.

 

Do Martim Moniz aos Prazeres

Desde tenra idade que as ruas de Lisboa lhe conhecem os passos. Nascida e criada em Alfama, cedo começou a familiarizar-se com os elétricos. O sonho de ser guarda-freio tornou-se realidade já há quinze anos. “Isto é a minha vida!

Escolhi esta profissão porque adoro elétricos e conduzir… Era para ser motorista, quando me disseram que ia para guarda-freio fiquei assustada, mas muito contente, era mesmo o que queria”, afirma Tânia Santos. Por ser uma profissão onde a responsabilidade é muita, ao início houve algum receio, devido aos seus inexperientes 20 anos.

Agora é que são elas!
Tânia Santos | © D.R.

“No primeiro dia de trabalho sozinha estava tão nervosa! Detestava subidas, era terrível pensar como iria parar numa colina com tanta gente dentro só com um travão a ar. Levei noites a sonhar com isto! [risos] Agora já faço a carreira de olhos fechados”, conta.

Do Martim Moniz aos Prazeres, muitos são os piropos que Tânia vai recolhendo: “Recebo elogios pela forma como trabalho… Sou mulher e as pessoas adoram ver uma lady à frente de um elétrico”. Todos os dias encontra gente e situações diferentes, o que leva a que não seja uma atividade rotineira, apesar de fazer sempre a mesma rota. Lidar com o público é apontado pela guarda-freio como a maior dificuldade, “existem pessoas muito complicadas”, mas aponta a excelente formação recebida para superar a pressão. Entre os colegas diz sentir-se em casa: “Somos uma família, temos uma relação fantástica. Nunca me senti discriminada, pelo contrário, sempre fui muito bem tratada”.

De cutelo em punho

Adora animais e diz que é muito difícil quando tem de lhes “cortar a cara”. Quando teve formação para talhante, há oito anos, confessa que não percebia nada do assunto e que foi a falta de opções que a levou à profissão.

Hoje, Vera Moutinho considera que se adaptou bem ao ofício, apesar de a carne encerrar muitos segredos: “Cortar carne aprende-se bem! Mas tem muitos segredos… O novilho, por exemplo, é uma carne cara e que tem de ser bem manipulada. As facas é que são traiçoeiras, já cortei um dedo até ao osso…”. Os clientes costumam dizer que as mulheres são mais delicadas ou que “já não são precisos homens para fazer nada” e Vera afirma que nunca se sentiu discriminada por ninguém.

A barreirense de 39 anos diz que é um trabalho pesado, mas que, por ser mulher, os colegas homens a poupam de algumas tarefas mais duras. “Todos os dias chega o camião com paletes de carne, tem de ser tudo desmanchado e arrumado para o dia seguinte. Eles desmancham e eu fico ao balcão… Mas quando estou sozinha tenho de fazer tudo”, conta. Trabalha por turnos, mas a rotina diária é sempre a mesma: “Trabalhamos muito. Sabemos que temos sempre muita carne para desmanchar, deixar stock para o dia seguinte e carne cortada para o balcão para quem vai abrir”.

Mulher ao volante…

Quando começou a fazer distribuições de correio em veículos pesados, não havia uma única mulher na atividade. Contudo, Natália Ramalho, de 49 anos, nunca se sentiu de forma alguma marginalizada: “Entrei para os CTT em 1999 e desde 2001 que sou motorista de pesados. Quando comecei neste sector não havia nenhuma mulher e os meus colegas acharam estranho, mas claro que depois se adaptaram”.

Conduzir e conhecer novos lugares são os principais atrativos da profissão apontados por Natália, que refere que o mais complicado é mesmo trabalhar por turnos. “Posso trabalhar durante uma semana de madrugada, na outra semana de tarde, na outra à noite… O organismo está a adaptar-se a um ritmo de trabalho que passado uns dias é novamente alterado”, explica.

Quando faz o turno da madrugada, a motorista acorda às 3:30 para entrar às 5:00. A pausa para ‘almoço’ é feita às 9:00 e às 13:30 termina o expediente. Natália diz sentir um grande apoio, não só dos colegas, mas também por parte de outros condutores com quem se cruza.

“Condutores de veículos pesados de outras empresas que passam por mim na estrada e acenam, fazem sinais de luzes… Eles respeitam e gostam de ver uma mulher a conduzir um veículo de pesados.” As pessoas de mais idade demonstram bastante curiosidade quando, do grande camião, veem surgir Natália. “Sobretudo as pessoas mais velhas ficam paradas a olhar quando faço manobras, talvez para verem se eu vou bater ou se encosto bem ou se o camião fica direito. Quando saio do veículo pergunto-lhes se ficou tudo bem e se estacionei bem, e vão-se embora sem dizer bom dia sequer.”

Agora é que são elas!
Natália Ramalho | © D.R.

Discriminada até por mulheres

Foi a primeira mulher árbitra da Associação de Futebol de Lisboa a subir aos quadros de futsal da Federação Portuguesa de Futebol. Ana Sofia Ribeiro tem 41 anos e conta já com 22 de arbitragem.

Jogadora federada de futsal, uma lesão fez com que se afastasse da prática desportiva, no entanto, acabou por ser convencida a arriscar num curso de arbitragem da modalidade. “É inexplicável o gosto que tenho por arbitrar. É uma paixão por todo o desafio da atividade, pelas caraterísticas e saberes que se exigem e se esperam de um árbitro. Entrar em campo e conseguir dar resposta a cada situação de decisão técnica e disciplinar, de mediação e gestão de emoções e conflitos, de conseguir acompanhar o desenvolvimento da modalidade e dar resposta às exigências em vários âmbitos na arbitragem…”.

Agora é que são elas!
Sofia Ribeiro | © D.R.

Paixão essa que a levou a tirar não só o curso de árbitra de futsal, mas também de futebol e de futebol praia. A escassez de mulheres na arbitragem, sobretudo no futsal em Lisboa, fez com que, inicialmente, as suas competências fossem postas em causa. Ana Sofia lembra por exemplo uma situação, há cerca de dezasseis anos, em que após advertir um jogador, este lhe deu o número de telemóvel quando questionado sobre o número da camisola que envergava. Conquistado o respeito de jogadores, técnicos e colegas, o grande ‘carrasco’ é o público. A árbitra foi alvo de discriminação e faltas de respeito até por parte de mulheres.

“Vivi algumas situações desagradáveis. Comentários, gestos e infelizmente, também agressões verbais e físicas. É difícil perceber sobretudo estas atitudes por parte do público feminino, que deveria orgulhar-se mais do esforço que fazemos para deixarmos a nossa marca na história do desporto”, lamenta.

Ana Sofia treina quatro vezes por semana, integra a Comissão Técnica da Associação de Futebol de Lisboa, onde são ministradas as ações de formação aos árbitros distritais e dá também formação a novos árbitros, através do Núcleo de Árbitros de Futebol de Lisboa. Sempre que é nomeada, é imprescindível fazer o estudo das equipas e o enquadramento do jogo.

“O futsal é um mundo de emoções, vivido e sentido por pessoas. Cabe-nos a tarefa de gerir essas emoções e vários conflitos que vão surgindo. Um árbitro que não esteja psicologicamente preparado para a função, acabará por falhar em algum momento.”

Uma lesão grave, que obrigou Ana Sofia a ser submetida a uma cirurgia, afastou-a temporariamente da arbitragem, no entanto, o espírito lutador levou a melhor: “Fiquei sem andar e sem fazer as coisas mais banais do dia a dia… Foi um ano de luta para conseguir ficar bem e voltar aos pavilhões, mas foi sobretudo um ano de muita aprendizagem em que dei valor a pequenos e grandes pormenores. E consegui voltar a fazer uma das coisas que mais gosto, entrar em campo com a bola na mão… e arbitrar.”