PUB

Hoje em dia isso parece já não chegar. À medida que aumentam, desenfreadamente, os estímulos tecnológicos, maiores se tornam os desafios impostos aos pais. Garantir que os seus filhos são felizes, ao mesmo tempo que mantêm os valores essenciais, é uma tarefa sem pausas condenada a frustrações. Mas não é impossível.

Fracas notas na escola, desarrumação, más companhias, excessos, falta de respeito ou de iniciativa quanto ao futuro… São vários os problemas com que os pais se debatem desde sempre, no que toca aos filhos, particularmente, adolescentes. Agora, somam-se os desafios consequentes da Era digital. Internet, redes sociais e novas tecnologias que formatam hoje o mundo colocam os mais novos numa espécie de universo paralelo, onde vivem grande parte do tempo, alheios ao que os envolve e isolados do contacto direto com os outros. 

Qualquer programa familiar, tarefas domésticas ou deveres escolares são trocados por sessões de jogos, filmes, séries ou horas de vídeos de youtubers e influencers – as figuras referência das últimas duas gerações.

Neste contexto, a educação – transmissão de valores, incentivo à responsabilidade e humanização – pode tornar-se numa experiência mais frustrante. Educar implica decisões difíceis, castigos ou repreensões, que, aos olhos de um adolescente, parecem muitas vezes injustificadas e quase sempre incompreensíveis. É aqui que começam os dilemas dos pais, que se debatem entre satisfazer as vontades imediatas dos filhos (evitando birras) ou impor limites ao seu comportamento ou distrações típicas da idade. Sendo a última opção, de longe, a mais árdua.

Segundo os especialistas, para preservar a harmonia e afeto, o mais importante é manter um canal de comunicação aberto com os filhos. No entanto, numa época acelerada onde falta tempo para tudo – os pais trabalham mais horas e os miúdos estão constantemente em modo robô, presos a um qualquer dispositivo criado para lhes reter a atenção -, estabelecer uma via de diálogo é mais difícil do que parece. 

“Há pais que não falam com os filhos e filhos que não falam com os pais. E isso é, de tudo aquilo que se espera da relação entre os pais e os filhos, o que há de mais incompreensível e mais trágico. Porque é como se os pais renegassem os filhos e os filhos os pais. Ou como se uns e outros se expulsassem, mutuamente, das suas vidas. Sem, no entanto, deixarem de viver presos uns aos outros”, refere Eduardo Sá, Psicólogo Clínico e Psicanalista, no texto ‘Quando os filhos não falam com os pais’.

“É por isso que, se eu pudesse interditar alguma coisa, proibia que os pais e os filhos deixassem de se falar. Simplesmente porque morremos sempre que desistimos daqueles que nos dão vida e nos deram ‘o ser’. Sejam eles filhos que não falam com os pais, ou pais que não falam com os filhos”

Segundo o também autor e professor, a falta de diálogo, expressa na teima, de parte a parte, em manter o silêncio, pode corroer irreversivelmente os laços entre pais e filhos. “Há atos que nos matam, por dentro. E, alguns, que matam de forma tão brutal que ficam, dentro de nós, a matar… devagarinho. Que doem tanto que nos desmoronam (…) Como se reage a alguns momentos em que sentimos que o melhor de nós não mede os seus atos e nos inunda de sofrimento e nos desregula o corpo e a alma? É por isso que eu acho inadmissível que se magoem os pais. Presumindo que os pais não magoem os filhos”, afirma Eduardo Sá. 

Como evitar a frustração

A verdade é que, muitas vezes, os pais sentem que as expetativas, esforços e investimento que depositam nos filhos são recebidos com indiferença e ingratidão, o que origina sentimentos de frustração e desespero. Mas há forma de superar estas emoções e construir ‘pontes’ que restabelecem a ligação com os filhos. 

Magda Gomes Dias, autora do site ‘Parentalidade positiva’ e de várias publicações, como o livro ‘Crianças felizes’, sugere no blogue ‘Mum’s the boss’ vários truques para lidar com um adolescente. 

Resumimos aqui alguns:

  • Envolvê-los na tomada de decisões – Estabelecer regras com os filhos (como o tempo de uso de gadgets) e garantir que eles as cumprem;
  • Picar o ponto ao jantar – A hora do jantar não é negociável, deve acontecer com regularidade e sem distrações;
  • Castigos e palmadas vão funcionar cada vez menos – Opte por responsabilizá-los pelas suas decisões (o castigo não tem diretamente a ver com a situação, a responsabilização sim);
  • Prefira a cooperação – Leve os seus filhos a cooperarem em vez de obedecerem (só cooperamos quando nos sentimos próximos uns dos outros);
  • Escute mais – “Claro que escuto os meus filhos! Ainda ontem ela fez uma asneira e eu estive a explicar-lhe com toda a calma o que é suposto acontecer e ela prometeu que nunca mais ia repetir. E sabe o que aconteceu? Hoje de manhã fez igual”. Se esta é uma situação comum na sua vida, releia a frase e responda a esta questão: quem é que escutou quem?;
  • Façam programas – Não os leve apenas à explicação. Ande de bicicleta com eles, programe uma festa surpresa ou uma ida a um concerto;
  • Provoque gargalhadas – O sentido de humor é determinante para que os filhos se sintam mais ouvidos e para que queiram estar por perto;
  • Reclame menos – Corrigir é importante, mas há alturas em que podemos falar menos, sorrir mais com os olhos e ficar satisfeitos com algo que eles fizeram para nos agradar;
  • Coloque-se no lugar deles – Eu entendo que o meu filho possa não aceitar a decisão que tomei. E também lhe posso dizer que sei que ele a sente como injusta e que não é porque ele está chateado comigo ou porque bateu com a porta que vou mudar de ideias. Depois? Depois deixe-o ficar, ele também precisa de espaço.
FONTE© iStockphoto/Fizkes