Este é um ofício que, para muitos, passou de geração em geração e que está prestes a desaparecer. A ‘Share Magazine’ falou com uma das últimas mulheres que ainda guarda as linhas e a vida de muitos.

Responder a quantas vezes já andámos de comboio há de ser um tanto ou quanto difícil. De tão banais, estas são viagens que não se apontam num caderno. Vamos certamente, muitas vezes, embalados pela carruagem e pelo ruído dos carris.

Por vezes na companhia de um livro, de um jornal ou de uma revista. De auricular no ouvido ou de telemóvel na mão. Sem nos darmos conta, cruzamos cidades, aldeias, campos e cultivos. Passamos rios e um sem conto de estradas. Paramos em estações e apeadeiros, entram e saem passageiros, e o comboio segue caminho. No meio disto tudo, mal reparamos que, em muitos lugares, nos quais as linhas de comboio rasgavam povoações, era alguém que nos cedia ordem de passagem.

Linhas de uma vida
O avanço da automação tem ditado o fim da profissão de guarda de passagem de nível | © Envato

Numa outra perspetiva: quantas vezes não ficamos parados no carro ao sinal vermelho de uma passagem de nível? Ficamos ali a aguardar que o comboio passe e a contar carruagens ao mesmo tempo. Depois lá se abrem as cancelas. Agora muitas são automáticas, mas poucas, cada vez menos, são fechadas por alguém. A velha profissão de guardas de passagem de nível tem os dias contados, mas por enquanto ainda há gente que faz dos caminhos-de-ferro as linhas de uma vida.

Profissão no feminino

É quase sempre uma mulher. Pelas suas mãos, abrem-se e fecham-se as cancelas para deixar o comboio passar em segurança. Os carros, camiões, tratores e motociclos param, quase em jeito de vénia a uma das inovações mais revolucionárias da Era Industrial. Na estação ferroviária de Mato de Miranda, ao quilómetro 93 da linha do Norte, ainda há quem guarde todos os carros e composições que atravessam a aldeia do concelho da Golegã.

Há apenas 80 pessoas para guardar as linhas ferroviárias portuguesas. A maioria são mulheres

As velhas cancelas de madeira, datadas do século XX, foram, recentemente, postas de lado. Finalmente um pouco de descanso para as costas de Maria do Rosário Simões, que não esquece como “era duro” manusear as barras de segurança. Foram centenas de vezes por dia, milhares de vezes por mês, e dezenas de milhares ao longo de muitos anos, não fosse a linha ferroviária do Norte a mais movimentada do país. Em muitas famílias e lugares esta é uma profissão herdada.

No entanto, a história de Maria do Rosário nas passagens de nível não começou nem com a mãe, nem com a avó. Começou pela grande necessidade de sustentar a família. “Tinha um filho e um marido empregado numa empresa que não lhe pagava ordenado”.

Já lá vão mais de 40 anos desde que decidiu entrar na formação para vigiar as linhas de comboio. No espaço de um mês passou nos exames médicos, fez o curso técnico e começou a trabalhar. O primeiro dia em que sinalizou os comboios e tomou conta de passagens foi perto da estação de Caxarias, “chamavam-lhe o 38, ou melhor, o 138”, tal como o quilómetro da linha ferroviária.

Linhas de uma vida
Maria do Rosário Simões é guarda de passagem de nível desde os 22 anos | © Record TV Europa

Rosário já viu passar muitas estações na estação de que toma conta. É aquela senhora que poderá ter visto, ao lado de uma pequena casinhola de madeira (hoje em dia, de material mais resistente), que, dia e noite, fizesse chuva ou sol, frio ou calor, ali estava, próxima da linha dos caminhos-de-ferro a dar indicações de passagem aos comboios, e a abrir as cancelas para os automobilistas seguirem caminho.

Casos de vida ou de morte

A guardiã conta que o tempo de espera, bem como o toque da sirene e a sinalização luminosa costumam causar algum stresse a quem está ao volante. As pessoas “são impacientes e mal-educadas. Julgam que nós não ouvimos”, ri-se. “No fundo, têm razão porque hoje em dia o tempo está todo contado. Quando abala um comboio e vem logo outro seguido, às vezes, ficam aqui uns 20 minutos. Pensam que temos culpa porque baixamos a cancela, mas eu nisto não facilito. Tenho medo e muito respeito pelas funções do meu trabalho”. E é assim que deve ser.

Qualquer distração poderia trazer sérios problemas a Maria do Rosário. Em caso de acidente na passagem de nível, seja por atropelamento ou abalroamento de um carro, a guarda tem sempre a sua quota-parte de responsabilidade.

A verdade é que parar para deixar passar um comboio não deveria ser nada de outro mundo, afinal, “se paramos nas passadeiras e nos semáforos, porque não havemos de parar aqui? Aqui ninguém se preocupa se o sinal está ou não vermelho. As pessoas estão muito stressadas”, lamenta Maria do Rosário.

Desde que dedica parte da vida à segurança dos caminhos-de-ferro, só houve uma única situação que acelerou o coração de Maria do Rosário. Já lá vão 20 anos que desenrolou, pela última vez, a bandeirola vermelha para que o comboio parasse e o pior não acontecesse. Recorda bem esse dia, em que “um senhor alcoolizado perdeu o controlo do carro no momento em que atravessava a passagem de nível. Acabou por ficar lá preso e o comboio estava prestes a aproximar-se”.

Valeu a aflição de todos os que assistiram ao incidente. Tudo se resumia à rapidez: Maria do Rosário tinha de avisar a estação, correr linha afora para instalar os petardos nos carris para travar o comboio e esticar a bandeira vermelha para que o maquinista parasse. Entretanto, cumpridos todos os procedimentos de segurança, estava já fora de perigo o senhor acidentado, já que alguns populares empurraram o veículo para fora da linha. A composição nem chegou a travar e seguiu viagem sem percalços.

Além deste, já viveu outros sustos, embora mais pequeninos. Situações com as quais lidou ali junto à caserna, na companhia de si mesma.

Linhas de uma vida
Num turno de oito horas, Maria do Rosário sinaliza perto de 80 comboios, na estação ferroviária de Mato de Miranda, na Golegã. O posto de guarda de passagem de nível ao quilómetro 93 da Linha do Norte é um das ‘casas’ onde passa mais tempo | © Record TV Europa

Sozinha, mas não só

E persiste a pergunta que nos inquieta: qual é o lugar do medo, quando se está para ali sozinha, tantas vezes, afastada da povoação, no meio de descampados, sem ninguém por perto? A resposta é pronta: “Nunca fui uma pessoa medrosa. Ele existe cá dentro, mas, no fundo, ‘ala, vamos embora!’”

Entre a azáfama de fechar e abrir cancelas e sinalizar os comboios que passam pela estação de Mato de Miranda surge a confissão esperada: ser guarda de passagem de nível é andar de mãos dadas com a solidão. “É uma profissão solitária para quem gostar de falar, mas para mim, que gosto de estar no meu cantinho, não é. Gosto do meu trabalho e da minha paz. Não quero cá ninguém. Além disso, entretenho-me a fazer croché”.

E isso podemos atestar. Maria do Rosário já passou aqui tanto tempo que chegou a fazer um tapete de Arraiolos enorme, que ia enrolando à medida que crescia para que pudesse caber na casa de guarda. Agora dedica-se a trabalhos mais pequenos. Hoje, por exemplo, adianta mais um bocadinho do ponto picot num pano de cozinha. A agulha pousa ao toque da campainha de aviso de aproximação do comboio. E mais uma vez, sem ter uma ideia clara de quantas vezes o faz num turno porque nunca as contou, Maria do Rosário fecha as cancelas e sinaliza o maquinista porque passam por ali muitos comboios. Ela sabe de onde vêm e para onde vão, porque o horário o indica, mas não os decora – “É mais um”, diz.

É mais um. Depois deste vem outro. Pela estação da Maria do Rosário passam comboios regionais, interregionais, intercidades, alfa-pendulares, os espanhóis e os de mercadorias, a qualquer hora do dia. Há alturas em que ela não chega a parar sequer um minuto. Um quarto de hora é, no limite, o maior intervalo de que usufrui. Não há uma única refeição que se coma quente. E o mesmo chá volta a ser aquecido três e quatro vezes, quantas forem precisas.

O turno de hoje termina à meia-noite. O trabalho há de continuar pela mão de outra colega. A essa hora, já não há comboios que levem Maria do Rosário para casa, em Caxarias. Este horário obriga-a a fazer da antiga casa do chefe de estação de Mato de Miranda a sua terceira casa. Lá tem um quarto modesto, onde passa as noites até que sejam sete e pouco da manhã e possa regressar à terra onde vive. E, claro está, a casa que resta é creme-amarelada, tem portas de alumínio e uma janela grande o suficiente para que possa sinalizar os maquinistas em dias de temporal, sem dali sair.

Linhas de uma vida
Na década de 1960, os caminhos-de-ferro nacionais eram vigiados por quase 1 700 guardas. Hoje são cerca de 80 | © Record TV Europa

Em vias de extinção

Maria do Rosário é das poucas guardas de passagem de nível que resistem ao avanço da Era Moderna e às tecnologias de automação de passagem de nível. Segundo dados da Infraestruturas de Portugal, na década de 1960, os caminhos-de-ferro nacionais eram vigiados por quase 1 700 guardas. Em 1999, antes da viragem do milénio, guardar as passagens de nível era função de 837 pessoas. Em 15 anos, o número de guardas caiu para 99. Atualmente restam cerca de 80. É a chegada ao fim da linha.

Aqui e ali ainda resistem algumas casinholas, corroídas pelo tempo, que lembram a época em que se esperava que a bandeirola vermelha baixasse a guarda. A esmagadora maioria desses casebres foi desativada. Sobre eles passam pontes, que não fazem abrandar o relógio a ninguém. Mas também se criaram passagens de nível automatizadas, nas quais o trabalho humano foi, simplesmente, substituído pelo da máquina.

As 40 cancelas que ainda são guardadas por mulheres – porque a história deste ofício escreve-se quase sempre no feminino – têm os dias contados e Maria do Rosário sabe bem disso. “É uma profissão em extinção. Somos como os animais, eu encarei isso assim”. Se dentro de dois ou três anos a passagem de nível de Mato de Miranda fechar, para a guardiã será tempo de ir embora. Mas até lá, admite, só para “se adoecer”. Isto diz alguém que em tenra idade só queria ser costureira. Mal sabia ela que, por força da necessidade, havia de se dedicar várias décadas a outras linhas.

FONTE© Envato