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O Natal de 2022 será passado a mais de quatro mil quilómetros de casa. É a distância que separa Portugal da Ucrânia, e com a qual centenas de famílias que fugiram da guerra lidam desde meados de fevereiro. Nesta época festiva não será diferente, apesar de ser uma quadra onde as saudades apertam.

Nestes tempos incertos, cumprir as tradições do país de origem ajuda a mitigar a distância.

Katerina, que agora vive em Lisboa com a mãe, cunhada e os dois filhos, de 15 e 9 anos, conta-nos alguns pormenores das tradições natalícias ucranianas, ao lado de Oleksandr, que nos dá uma ajuda com a tradução.

Gastronomia festiva

A ceia de natal ucraniana é baseada nos doze apóstolos. É confecionado um prato em homenagem a cada um deles, sendo que a maioria são vegetarianos. Para nós, o prato obrigatório para ter à mesa é o kutiá, uma mistura de trigo com sementes de papoila, frutos secos e mel. Come-se apenas uma pequena colher, no dia santo, sempre antes de começar a refeição”, explica Katerina.

Se a maneira de começar o jantar é igual para a maioria da população ucraniana, o mesmo já não acontece quanto ao menu da quadra.

Cada família tem os seus pratos tradicionais. Faz-se habitualmente aquilo que mais se gosta, mas não há nenhuma tradição específica. O importante é que não haja carne. A minha família costuma fazer holubtsi [um dos pratos ucranianos mais conhecidos], com a diferença de que não colocamos carne. Nesta quadra, o prato consiste apenas em arroz e legumes enrolados em repolho. Também fazemos o bolo Napoleão, por exemplo, que costuma levar queijo”, refere.

E será que vai haver um pouco de Portugal na mesa de Natal desta família? Ainda não sei. Talvez aprenda a fazer pastéis de nata, porque os meus filhos gostam muito. Por isso, em princípio, pode haver um doce tipicamente português”, responde.

Natal nas famílias ucranianas
Katerina e Oleksandr | © Record TV Europa

Diferentes tradições

Sendo este um povo maioritariamente ortodoxo, os dias 24 e 25 de dezembro não têm qualquer simbologia. Na Ucrânia, o Natal festeja-se no dia 7 de janeiro, logo após o Dia de Reis.

O nosso Natal é depois do Ano Novo. Os miúdos abrem as prendas no dia 1 de janeiro. É também a partir desse dia que as crianças vão visitar a família próxima, como os tios e primos e oferecem um pouco de kutiá”, conta Katerina.

Neste Natal atípico, essa tradição não se irá realizar. E por isso, vivem-se dias onde a preparação da celebração é adiada ao máximo. Por enquanto ainda não temos planos, nem queríamos pensar muito nisso, porque é um pouco difícil devido à guerra. Metade da família está cá, metade está lá”.

E apesar desta ser uma época tradicionalmente de paz, Katerina desabafa: “O tempo passa rápido. Nós chegámos há oito meses. Pensámos que íamos ficar só um mês, ou dois… mas já passaram oito. E por mais dias que passem… a mágoa não se atenua”.

A mudança forçada para Portugal não foi fácil, mas o seu sentimento de gratidão abrange todos aqueles que ajudaram na adaptação à nova vida. “Quero agradecer às pessoas que nos foram buscar à Polónia, por nos terem acolhido e tratarem bem de nós. Até ao dia de hoje, ajudam-nos sempre que podem e deram-nos trabalho.”

E Katerina conclui: “É importante saber que também estão cá mais famílias ucranianas. Criámos amizades e falamos com aqueles que chegaram cá ao mesmo tempo que nós. Sentimos o esforço que muitos fizeram para nos enquadrarem”.

Queria desejar a todos muitas alegrias, mas é difícil porque na Ucrânia a guerra continua. Ainda assim, Feliz Natal

Neste primeiro Natal em terras portuguesas os votos e desejos espelham o sentimento de segurança proporcionado pelo país, mas também a tristeza pela guerra que devasta a Ucrânia. Porém, esta família e outros ucranianos têm uma certeza: a imensa vontade de regressar ao seu país quando a paz voltar a ser uma realidade.

Veja a reportagem sobre como os ucranianos celebram o Natal:

FONTETimolina, Envato