O continente europeu está a atravessar uma das secas mais severas de sempre. As vagas de calor e a falta de chuva fazem descer o nível dos rios e canais ameaçando dessa forma vários setores como o transporte de mercadorias e respetivo comércio, agricultura, turismo e a produção de energia.

O rio Reno atravessa a Europa desde os Alpes Suíços até ao mar do Norte, nos países Baixos. É um dos principais canais de transporte de mercadorias na Europa e está cada vez mais seco.

“Normalmente temos mais de dois metros de profundidade por baixo do navio, mas agora, em algumas zonas, temos apenas 40 centímetros”, explica Peter Claereboets. Capitão do Servia, um navio de 135 metros que transporta minério de ferro para uma siderúrgica alemã, explica como tem de gerir a carga do navio de forma a evitar os locais mais baixos do rio. “Para nós o desafio é passar por alguns desses pontos sem lhes tocar sem danificar o navio” explica o capitão. Neste momento apenas pode ocupar 30 a 40 por cento da carga total do navio para não correr o risco de encalhar. Outras embarcações, incapazes de navegar as águas agora frágeis do rio europeu, tiveram mesmo de parar as respetivas travessias.

Peter Claereboet – Capitão do Servia
Peter Claereboet – Capitão do Servia | © Reuters

O Reno, considerado um pilar das economias alemã, holandesa e suíça, pode tornar-se praticamente intransitável nos próximos dias, segundo a Bloomberg.

Algo que pode representar um duro golpe, uma vez que o rio é uma importante rota para mercadorias que podem variam de grãos de trigo, a produtos químicos e carvão. Este último representa um problema particularmente complicado.

É através do Reno que é transportada a maior parte do carvão até às centrais de produção energia na Alemanha, que tentam minimizar os impactos da redução da dependência energética do gás oriundo da Rússia.

Também o Danúbio, com quase três mil quilómetros de extensão, está cada vez mais seco, dificultando o transporte e comércio de grãos e outras mercadorias. Naquele rio já foram realizados desassoreamentos de urgência na Bulgária, Roménia e Sérvia, para os barcos com matérias-primas como o carvão possam passar e assim permitir que estes países, continuem a produção de eletricidade.

A produção energética está fragilizada e nem mesmo os países que apostaram na energia nuclear podem ajudar a colmatar os problemas.

Rio Reno está cada vez mais seco
Rio Reno está cada vez mais seco| © Reuters

Rios quentes não servem para centrais nucleares

Não chove e faz calor. Os rios estão secos e as águas cada vez mais quentes. Numa situação normal, as ondas de calor impediriam que as centrais nucleares operassem de forma normal, de forma a evitar descargas de águas, utilizadas no arrefecimento dos reatores, nos rios, aumentando dessa forma a temperatura dos mesmos.

Em França, e apesar das dificuldades ambientais, foi aberta uma exceção a cinco centrais nucleares para que pudessem continuar a fazer descargas. Rios como o Ródano e Garona estão já demasiados quentes mas isso não impede as contínuas descargas de água das centrais, o que pode colocar em risco a biodiversidade e os ecossistemas fluviais.

“O governo considera que é do interesse público manter a produção destas centrais nucleares até 11 de setembro, apesar das condições atmosféricas excecionais”, informou o ASN, o regulador francês para a energia nuclear, citado pela agência Reuters.

Centrais nucleares em França continuam a fazer descargas JPG
Centrais nucleares em França continuam a fazer descargas JPG | © Reuters

Desta forma, França, país normalmente exportador de energia, não pode aliviar a crise energética provocada pelo conflito na Ucrânia e o baixo nível dos rios que não permite a passagem do carvão.

Até em Portugal é possível ver as consequências da seca severa na produção de energia. A diminuição da água armazenada nas barragens limita a produção de energia hidroelétrica. Estima-se que a eletricidade produzida seja cerca de metade da média de anos anteriores.

Falta de água coloca em risco culturas em Itália

Outro dos setores sensíveis à falta de água é a agricultura.

Itália teve o ano mais seco desde o início dos registos, em 1800. A precipitação diminuiu 46% em todo o país, com o norte de Itália a ser o mais afetado.

O rio Pó, que atravessa o norte de Itália desde os Alpes do Adriático e ajuda a irrigar as plantações, viu os níveis de água disponível caírem drasticamente. O rio já não tem caudal suficiente para garantir o cultivo de arroz, milho e girassol.

Rio Pó já não tem caudal suficiente para garantir o cultivo de arroz, milho e girassol
Rio Pó já não tem caudal suficiente para garantir o cultivo de arroz, milho e girassol | © Reuters

No mês passado, as autoridades do país declararam estado de emergência para as áreas em redor do Pó, que correspondem a mais de um terço da produção agrícola total de Itália
De acordo com a “Bloomberg”, um terço da produção agrícola de Itália está agora em risco devido à situação de seca extrema.

Zonas turísticas dependentes dos rios ressentem-se

O rio Doubs e os seus percursos que atravessam a fronteira franco-suíça, são bem conhecidos pelos turistas e pelos barcos de cruzeiro fluviais. As localidades de Le Brenets, na Suíça e Arcon e Villers-Le-Lac, em França, prosperam com o turismo desta altura do ano, mas hoje, o cenário é bem diferente.

A seca que se vive no continente europeu tem feito as águas do rio recuar, deixando a nu um cenário desolador, com barcos ancorados em terra firme. A água que antes passava em abundância através de um desfiladeiro e caía em cascata antes de desaguar no lago Brenets agora avança até ao lago lentamente através de um ribeiro estreito.
Menos água significa também menos clientes para Christophe Vallier, proprietário de um restaurante na zona.

“Neste momento fazemos apenas 15% da faturação normal. Normalmente fazíamos 80 a 100 refeições por dia. Agora, fazemos dez, 12 ou às vezes 15. Aos domingos conseguimos chegar às 20. É uma catástrofe, simplesmente catastrófico”, explica. Depois de dois anos de pandemia, esperava-se que este fosse o ano da retoma económica, algo que não se verificou.

“Este ano começou bem, tínhamos muitas reservas de grupo, pessoas desejosas de sair. Mas de repente, não há barcos para navegar, é muito complicado”, afirmou.

O ouro líquido do futuro

Especialistas acreditam que a Europa possa estar a atravessar a maior seca dos últimos 500 anos, com o Centro Comum de Investigação da União Europeia a alertar para que o atual cenário deverá ainda piorar. Em Portugal, ano de 2022 já fica marcado pela terceira pior seca desde 1931.

A seca existente na Europa é um problema real e os especialistas acreditam que cenários como estes deverão manter-se e até piorar em anos vindouros.

As alterações climáticas e as suas consequências parecem realidades cada vez menos distantes, ditando já os problemas do agora: ondas de calor em locais inusitados, solo seco, incêndios catastróficos e falta de água.

Várias localidades em países europeus já iniciaram racionamento de água e em alguns locais, esta teve de ser reposta de forma artificial em tanques e outras estruturas que abastecem a rede que permite termos água nas torneiras. A mesma água que tratámos sempre como se fosse infinita. O verdadeiro ouro líquido do futuro.

FONTE© Reuters