A sensação de a viver tem inúmeras histórias e, por vezes, múltiplas personagens. Três em cada dez portugueses sofrem de dor crónica, que dura mais de três meses e persiste para além da causa. Cinco mulheres contam-nos como a enfrentam.

A Mila

As pessoas são más. Não são compreensivas, não ajudam

– Emília Pinto

Recuamos a 2010. Como era habitual, Emília Pinto saiu de casa em direção ao metro para mais um dia de trabalho no ateliê de costura. Mas um súbito formigueiro na perna esquerda deu a Mila – como lhe chamam os amigos – os primeiros passos em falso.

Recorreu à linha SNS24, que lhe indicou que se deveria dirigir ao hospital. Vários dias de internamento e três punções lombares depois foi-lhe diagnosticada Mielite Transversa Idiopática. Aos 53 anos, Mila nunca mais caminhou como antes. À sua frente estava uma nova forma de vida. “Houve alturas em que não aceitava. Durante a noite não podia ir à casa de banho. Desequilibrava-me muito, tinha de me agarrar por causa da medicação ou porque eu mesma não estava bem”, recorda.

Emília Pinto
Emília Pinto | © Record TV Europa

Agora, com 64 anos, o andar desajeitado, como que soprado pelo vento, não é obstáculo para viver o dia a dia o mais independentemente possível. Já passou por uma cadeira de rodas, pelas canadianas – que ainda se encontram atrás da porta da entrada e às quais evita recorrer por se crer capaz. Contudo, as quedas são regulares e as dores constantes.

A Maria

Tenho consciência de que vou ter sempre dor e será cada vez pior

– Ana Maria Gregório

Há mais de 20 anos que Ana Maria Gregório, de 68 anos, sofre de artrite reumatoide. As manhãs eram o maior desafio à reação à dor. “Doíam-me os joelhos, as mãos, tinha imensas dores nas costas e dormia muito mal. Os movimentos eram lentos quando me levantava. Só à medida que o dia passava ficava melhor.” É seguida na consulta da Dor no hospital Amadora-Sintra e já foi sujeita a ozonoterapia e acupuntura. Ainda há pouco tempo foi-lhe aumentada a dose de medicamentos “para que possa ter uma vida melhor”. Faz natação e ainda trabalha em limpezas, porque se não fizer ainda é mais difícil. “Se não me movimentar será pior”, diz convicta.

A aceitação de uma patologia de dor crónica que impeça levar uma vida ‘normal’ é um dos pontos-chave para o controlo e adaptação à dor.

Ana Maria Gregório
Ana Maria Gregório | © Record TV Europa

“É muito importante que o doente perceba que tem de viver com aquele problema. Que há coisas que não consegue fazer, mas com medicação e tratamento contínuo vai conseguir lá chegar. Vai ter de adaptar a sua vida à nova condição”, refere Nuno Franco, médico da unidade de Dor, do Centro Hospitalar Médio Tejo.

A Conceição

“Foi muito duro até conseguir mentalizar-me de que estou limitada de fazer várias coisas”, revela Conceição Dionísio. De olhos baços, confessa que em 2005, época em que o corpo lhe amargurou a existência, quase estragou a vida. “Não temi morrer, mas temi dar cabo da minha vida. Quem me conhece sabe que sou forte. Mas sou humana”.

Não tenho vergonha. Tenho pena do que já fui e agora sou

– Conceição Dionísio

Caiu em si, fez psicoterapia e aceitou a lombalgia crónica de múltiplas hérnias. Hoje, é uma mulher que tem dor desde que acorda até que se deita, inválida a 85%, mas que vive “sem qualquer complexo”. Há quatro anos, tomava 40 mg diárias de morfina. Agora toma 24 mg e recebe-nos em sua casa, dois dias volvidos da quarta cirurgia à coluna lombar para colocar um neuroestimulador.

Conceição Dionísio
Conceição Dionísio | © Record TV Europa

Nuno Franco explica que “quando temos um traumatismo vamos massajar com força o cotovelo, ou onde for, e passa. A ideia do neuroestimulador é essa, a de provocar uma zona que deixa de ter sensibilidade”. Por norma, é um método usado em último recurso e constitui um investimento que ronda os 20 mil euros, apenas comparticipado pela ADSE.

“Tenho gasto rios de dinheiro. Tudo o que tem havido de poupança de uma vida tem sido gasto comigo. Mas, como diz o ditado, ‘vão-se os anéis e ficam os dedos’”, conta Conceição, na esperança de que o pequeno telemóvel que adquiriu a ajude a regular e a tolerar aquelas dores que há muito lhe tomaram conta da vida e, que por opção, a levaram a pedir a reforma antecipada.

Foi funcionária pública e os seus dias eram passados sentada à frente de um computador. Sentia-se melhor de pé, levantava-se várias vezes por hora, “incapaz de cumprir o serviço”. Foi a várias juntas médicas com relatórios da unidade de Dor, neurocirurgiões e médico de família que justificavam mais de 65% de invalidez.

A batalha de pedido de reforma prolongou-se por mais de três anos, por ter um quadro clínico de difícil reconhecimento para muitos profissionais de saúde e, inclusive, da sociedade.

Nuno Franco reconhece a questão e revela que a “formação em dor é muito pobre” e que “praticamente não se fala no tema a não ser na cadeira de Farmacologia”, admitindo a necessidade de se trabalhar neste ponto nos próximos anos.

Opinião partilhada por Ana Pedro, da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor. “Há muito trabalho a fazer em várias áreas. Temos de alertar os profissionais e dotá-los de capacidade para tratarem bem estes doentes ou, se se consciencializarem, tratarem cada vez melhor”, defende.

Acrescenta ainda a necessidade de haver mais sensibilidade por parte dos empregadores. Estima-se que a dor crónica represente o avultado custo de 380 milhões de euros na economia nacional, o correspondente a 2,7% do Produto Interno Bruto, prejuízo fruto do absentismo laboral.

Também médica na unidade de Dor do Amadora-Sintra, Ana Pedro retrata a dor crónica como sendo algo que vai muito além da dor física que se sente e do próprio doente. “A doença deixa de ser só da própria pessoas pelo impacto sobre as suas emoções, a sua vida social e, claro, a vida laboral. Ter dor crónica faz muitas vezes com que se tenha de estar ausente do trabalho por períodos prolongados. Por vezes, a pessoa até consegue retornar à vida laboral, mas não é tão eficaz nem tão produtiva como devia ser.”

As baixas médicas são recorrentes para o doente crónico. Os custos para as entidades empregadoras fazem com que se sugira o despedimento ao trabalhador e, grande parte das vezes, a reforma antecipada. Mila adorava trabalhar. Também era adorada, de tal forma que era “pau para toda a colher” e até as clientes reconheciam os “passinhos, que é coisa que deixaram de reconhecer por se terem tornado arrastados”.

Mas a impossibilidade de estar disponível no ateliê – como outrora – deu a Mila um dos maiores desgostos: ouvir, insistentemente, não ser apta e tentar, o quanto antes, reformar-se.

Emocionada, sente que “ajudou bastante a ‘casa’, mas que não foi ajudada. Custa-me muito não compreenderem”. Aos olhos de Nuno Franco, a verdade da dor consta no “‘só eu sei, só eu compreendo a minha dor’, porque cada pessoa sente a mesma dor de forma diferente”. Em Portugal, a maioria dos hospitais públicos disponibiliza terapias alternativas à medicina convencional, mas há falta de especialistas na área. Nuno é o único médico a contrato na unidade de Dor do CHMT, que serve mais de 200 mil habitantes, e que faz acupuntura.

A Teresa e a Patrícia

Queria fazer as coisas e não conseguia fazer nada

– Teresa Mendonça

Antes de ser encaminhada para o hospital de Tomar, Teresa Mendonça, de 72 anos, doente com lombalgia crónica, foi operada à coluna e estava sob grandes doses de medicação. Sentia-se “uma mulher inválida” e, com a acupuntura, nota diferença como “do dia para a noite”.

Teresa Mendonça
Teresa Mendonça | © Record TV Europa

À sua frente está Patrícia Pedro, também sofredora de dor crónica na coluna. Caiu de bicicleta aos 13 anos e, desde então, a dor não mais a largou. Houve alturas em que se comparava a um “robô que nós clicamos num botão e ele desliga” ou uma zombie pelo excesso de medicamentos mal atribuídos.

Foi com Nuno Franco que adquiriu um pouco mais de qualidade de vida. Pela primeira vez em muitos anos, não toma comprimidos. É tratada apenas com o método da estimulação elétrica transcutânea do acuponto.

Patrícia Pedro
Patrícia Pedro | © Record TV Europa

Dizerem-me para não me preocupar conforta-me

– Patrícia Pedro

Patrícia é um dos vários casos confirmados pelo médico que indica a eficácia da acupuntura “sem necessidade de recorrer a outros fármacos”. Contudo, a dor não desaparece. Quanto muito, a dor crónica adormece. Conscientes do desafio diário de convivência com a dor, Mila, Ana Maria, Conceição, Teresa e Patrícia são apenas cinco testemunhos dos mais de três milhões de portugueses que têm como mais certo sentir dor logo pela amanhã.

FONTE© StockSnap, Pixabay