Com mais de 50 anos de carreira ficou conhecido do público nos anos de 1970 como um dos principais talentos da música popular brasileira. Cantor, pianista e compositor responsável por grandes clássicos, Ivan Lins já venceu inúmeros prémios internacionais. E aos 76 anos continua a conquistar a admiração do público.  

Está de regresso a Portugal… Era importante para si voltar ao país?
Estava ansioso para voltar, até já contava o tempo. [risos] Ficou muito mais difícil de viajar por causa da pandemia e por causa do preço dos bilhetes das viagens, que também subiu. Agora com a guerra tudo piorou ainda mais. Mas quando cheguei foi um alívio, senti que tinha chegado a casa!

Falar de Portugal é falar de amor. Concorda?
Sim, eu tenho uma paixão gigante por este país.

Com este regresso podemos dizer que o Ivan traz amor?
Sim, eu trago amor e esperança. Essas são mensagens que eu quero passar.  É importante mostrar amor à família, ao país, à natureza, aos amigos e também ter amor próprio.

Sente alguma responsabilidade acrescida por ser um dos maiores músicos do Brasil?
A responsabilidade esteve sempre comigo, no sentido de passar mensagens boas para as pessoas. O mundo já está demasiado perturbado para ainda receberem mensagens negativas. Acho que a melhor forma de relaxarem e buscarem a sua emoção, hoje em dia, é a música – que é uma arte.

Diz que procura sempre fazer a coisa mais bonita… A sua carreira é, portanto, repleta de coisas bonitas?
Sim, eu sou muito exigente comigo mesmo. Tenho os meus padrões de beleza, que muitas vezes não são os mesmos dos das outras pessoas. No entanto, acredito que as coisas belas só pertencem a quem as ama. Tenho um compromisso com a beleza, porque quero dá-la às pessoas. Essa é a minha função primordial no ato criativo.

De onde vem a beleza das suas letras e harmonias?
Vem exatamente de duas palavras: amor e esperança.

O amor que o Ivan coloca nas suas músicas vem de onde?
Vem de dentro de mim desde sempre. Quando tinha 17/18 anos tive alguns amores platónicos. Era muito tímido, e por isso, apaixonava-me por uma menina e depois logo por outra. [risos] Tinha medo de chegar perto delas, então a minha forma de lidar com a situação era escrever pequenos poemas para falar sobre isso.

Sente que a forma como ouve a música, hoje em dia, é diferente?
Mudou completamente. Na minha altura, as pessoas compravam os discos ou ouviam a rádio, sentavam-se e ficavam a ouvir. Era um momento contemplativo. Hoje a música é background, é o fundo para uma atividade que estamos a fazer. Se nós realmente queremos entrar dentro da música e não fazer mais nada temos de ir a um concerto. Os espetáculos são muito importantes, tanto para o público como para os artistas.

Os concertos acabam por consagrar o trabalho dos artistas?
Sim, porque é algo que é real, que está a acontecer naquele momento.

É bom partilhar a música com outros artistas?
É maravilhoso, principalmente quando temos admiração por essa pessoa. Pode trazer-se novas ideias para o nosso ato criativo e ter prazer pessoal. Gosto muito de estar envolvido com outras músicas.

O mundo já está demasiado perturbado para as pessoas ainda receberem mensagens negativas

O que significaram Elis Regina ou Chico Buarque na sua trajetória?
Foram professores maravilhosos. São de uma geração anterior à minha, apesar de Elis ter a mesma idade que eu. A Elis nasceu no mesmo ano que eu, mas ela começou no mundo da música muito mais cedo. Eu só comecei a aprender piano aos 18 anos e ela não. Ela aos 15 anos já cantava e dominava – era um sucesso!

O Ivan Lins diz que é uma pessoa inquieta musicalmente. O que quer exatamente dizer com isso?
Existe sempre alguma coisa nova para ir buscar-se. Nunca acredito que já se fez tudo na vida. Acho que só fiz um terço do que eu posso fazer… Ainda me faltam dois terços. Sou inquieto por causa disso.

O processo de fazer música difere de artista para artista. É verdade?
Há casos que sim, mas também há casos que não. Por exemplo, quando a Elis era viva, a minha assinatura de qualidade vinha do facto de ela gostar da música. Eu nem penso em fazer músicas para intérpretes. Faço música para mim, mas imagino outras pessoas a cantá-la. A canção ‘Renata Maria’, que fiz com o Chico Buarque, foi uma música que, quando a enviei, tentei imitá-lo. Na altura, ele ligou-me e disse que eu estava maluco, que a voz dele não era nada assim. [risos] Eu disse-lhe que apenas estava a tentar imitá-lo e ele respondeu que eu estava a ofendê-lo! [risos] Tudo na brincadeira, claro. Foi muito bom!

As suas músicas transportam-nos para outras épocas…
De certa forma, sim. No entanto, há uma frase que o Paulinho da Viola disse: ‘O passado não existe quando colocamos o passado no presente’. Quando falamos do passado, agarramos nele e pomo-lo no presente. Nesse momento já não é mais passado, passa a ser o presente, porque estamos em contacto com sentimentos antigos, estamos a exteriorizar o nosso interior. É uma frase que eu acho brilhante, é um tratado filosófico que leva muitas pessoas a pensar.

Celebra mais de 50 anos de carreira. A forma como acredita e sente a música permanece igual à do primeiro dia?
Sim. A filosofia é a mesma: fazer música para passar amor e esperança a todos e ter sempre um compromisso com a beleza.

Não há música de Ivan Lins sem emoção e beleza?
Uma música minha só está pronta quando me emociono com ela. Está aqui a resposta!

FONTE© Record TV Europa