Começou a carreira ainda miúdo com o incentivo da namorada. Desde então nunca mais parou. Ficou conhecido como o ‘homem dos sete ofícios’: é ator, apresentador, locutor de rádio e apresentador de eventos. Não é DJ, mas dá um certo ‘baile’ e tem um currículo muito vasto. João Paulo Sousa, de 33 anos, participou em inúmeras séries e telenovelas. Atualmente, é um dos nomes mais proeminentes da sua geração no audiovisual.

Começaste a tua carreira ainda muito novo, por incentivo da na altura tua namorada, Adriana. És filho único, saíste de Alcobaça e vieste viver para Lisboa ainda com 16 anos. Sentiste que foi um grande passo?
Acho que foi mais difícil para os meus pais do que para mim. Quando disse à minha mãe que vinha viver para Lisboa ela começou imediatamente a chorar e o meu pai disse “cala-te e come a sopa”. Comi a sopa e vim à mesma. Foi isso que aconteceu. [risos]

O teu pai era mais exigente contigo – sentiste isso nesse momento de mudança?
Sem dúvida! Durante muitos anos, acho que os meus pais não levaram muito a sério a ideia de eu sair de casa. Quando vim e depois de algum tempo a estar cá, ele dizia-me: “Já chega, já experimentaste e já podes vir para casa… Volta!” – mas, felizmente, tinha a minha namorada, mulher agora, que insistia para eu ficar.

Ela foi a pessoa que mais acreditou em ti?
Sim. Para já foi ela que me inscreveu num casting de uma novela e só com isso dá para perceber que ela desde o início me motivou a fazer o que adoro. Vai fazer 17 anos este ano que estamos juntos e, por acaso, essa data no outro dia ‘bateu-me’ um bocadinho. Quando fiz 32 anos apercebi-me que já tinha passado 16 anos da minha vida sem ela e outros 16 com ela – claramente a melhor parte foi quando estive e estou com ela.

O próximo passo será escolher o nome da vossa filha… Porque é que tens preferência pelas meninas, é para ser a ‘menina do papá’?
Portanto, esta pergunta foi para me envergonhar [risos]… Por acaso, já pensei no nome, sim. Acho que nós homens sabemos que as meninas são mais as ‘meninas do papá’ e os meninos acabam por se chegar mais às mães – eu próprio sou muito mais próximo da minha mãe também.

Fazes rádio, televisão, eventos, festas… tudo ao mesmo tempo. A Adriana ‘atura-te’ assim?
Acho que a vida dela é ‘fixe’ nesse sentido. Eu às vezes vou só almoçar a casa, portanto ela tem a vida dela e eu a minha, e funcionamos bem assim.

És muito autocrítico, muito perfecionista. Achas que herdaste isso do teu pai?
Sim, fui buscar tudo isso ao meu pai. Durante muitos anos isso ‘jogou’ contra mim, mas agora percebo que é a favor. Já cheguei a fazer rádio das 7:00 às 8:30 da manhã, ia para a novela das 11:00 até às 19:00 e depois ainda ia fazer espetáculos à noite para o Porto. Tinha de apanhar avião e depois voltar durante a noite na carrinha que me deixava outra vez no estúdio para começar outro dia. Era sempre assim. A longo prazo isto não é aconselhável, não é fácil. Depois havia muito o ‘choque’ de emoções, porque de manhã estava na rádio superanimado e depois na novela tinha de fazer cenas dramáticas, de choro… Era um contraste muito grande. 

Já apresentaste e cobriste vários festivais de música. Qual foi o momento mais marcante que viveste num desses diretos?
Foi no concerto dos Korn, no Rock In Rio, que não aconteceu após três tentativas. Lançámos o concerto e fomos jantar. No momento em que estava a pôr um croquete na boca ouvi: “Imediatamente para o estúdio!”. Eu e a Maria [Botelho] começámos a correr até ao estúdio e tentámos outra vez lançar o concerto, mas não aconteceu de novo. Depois disso a banda disse que não iria atuar e mudou tudo. Tivemos de ‘encher’ o tempo durante uma hora e foi difícil. [risos]

O teatro de improviso serviu-te, então, muito para esse tipo de situações. Certo? 
Resultou imenso, mas lembro-me de que quando estava na Escola de Atores tive de decidir e foi uma escolha difícil. Todos os meus amigos queriam fazer Shakespeare e eu só queria teatro de improviso. Porquê? Não sei explicar, mas provavelmente foi o destino. Mais tarde no day time, a fazer as férias do João Baião, e atualmente na ‘Casa Feliz’, percebi que o teatro me deu imenso jeito. Basicamente, obriga-te a ouvires a pessoa naquele momento e, acima disso, criar outro novo momento com piada, se possível – que é a parte mais complicada. [risos] Isto é daquelas coisas que quando tens de fazer viagens para o Norte para um festival e vais ganhar 10 euros, andas o tempo todo a pensar: “Porque estou a fazer isto? Estou a pagar para fazer isto!”. Mas uns anos depois percebes que realmente essas experiências foram muito úteis.

Estás numa relação há muitos anos… Fazes muitos sacrifícios para que continue a resultar até hoje?
Claro. Quando me falam sobre isso gosto de deixar bem claro que dá muito trabalho ter uma relação. Há momentos em que ela nem me vê e reclama comigo e outros em que eu também quero atenção. Toda a gente tem altos e baixos e numa relação isso é difícil de distinguir. Muitos dos meus amigos, que não conseguem ter uma relação de longo prazo, têm a ideia de que só existe o lado ‘cor-de-rosa’ e acreditam que quando começa a dar trabalho é porque já não está a resultar… e não é assim.

[Numa relação] nem tudo é ‘cor-de-rosa’, nem todos os momentos são ótimos. Há momentos chatos e difíceis.

Profissionalmente, o que te falta fazer ainda?
Não sei bem, mas também não penso muito nesses termos. Quero muito continuar a gostar daquilo que faço e tenho a certeza de que tudo o que eu criar em cima disso vão ser coisas de que eu gosto e que, consistentemente, consigo fazer sem grande esforço. Não tenho assim um programa que realmente queira muito apresentar ou fazer. Tenho, sim, imensos planos e inúmeras coisas para fazer, só que não tenho tempo. O mais importante para mim é que tudo o que eu faço seja feito com amor, dedicação e verdade.

Consegues lembrar-te do momento em que pensaste que realmente estavas a seguir o caminho certo?
Haver muitos momentos confortáveis é difícil. Acho que agora sinto um ‘bocadinho’ isso com a rádio, fazer um programa que é 100% o que eu queria. Adoro ter de desenvolver e levantar temas desconfortáveis, tabus e convidar pessoas que não são as mais ‘normais’. Queremos falar com aqueles que não são típicos convidados, por exemplo alguém que é um pensador cientista que está à procura da cura para qualquer coisa, ou então uma pessoa que só escreve livros e que vive basicamente fechada em casa a escrever. Nós queremos conhecer essas pessoas. Isso tem-me feito crescer muito e abana a minha estrutura humana e os meus pilares, as minhas verdades e os preconceitos que estão na minha cabeça. Faço um programa que não esperava conseguir fazer tão cedo – e, claro, estou sempre de ‘olho’ naquilo que quero fazer a seguir. Acho que aos 33 anos é difícil alguém conseguir fazer e criar algo tão sólido como o que eu faço nas entrevistas – e acho que daqui a alguns anos vou conseguir distinguir-me a fazer entrevistas. Quando estamos neste ‘patamar’ só pensamos em fazer mais e passar para o ‘nível seguinte’. Queremos sempre fazer mais e mais! Somos muito exigentes connosco próprios.

FONTE© Record TV Europa