Sendo um dos mais reconhecidos intérpretes e compositores da música portuguesa, começou a sua carreira muito novo e nunca mais deixou de lado a música. Com 65 anos, Luís Represas tem uma carreira com mais de 40 anos repleta de sucessos e incontáveis coliseus esgotados.

É feliz a fazer a música que quer, com quem quer e como quer?
Sim, eu acho que só assim é que conseguimos ser felizes. Os artistas, sejam eles pintores ou cantores, têm a liberdade plena de trabalhar como querem. Só assim é que são felizes.

Não podemos deixar de falar sobre o grande concerto que deu em abril…
O concerto que eu imaginei em 2019 consegui estreá-lo e transformá-lo. No entanto, apareceu a pandemia. De repente parou tudo. Este espetáculo passou pela minha presença sozinho no palco com as minhas guitarras. Foi muito como se eu estivesse em minha casa e a fazer as canções pela primeira vez. É um espetáculo que se chama ‘Ao Canto da Noite’ – uma canção minha do álbum ‘Código Verde’, de 2000, que homenageia temas que ficaram para trás.

Os clássicos continuam a fazer parte dos espetáculos ao vivo?
Obviamente que sim. Eu como público ficaria muito irritado e chateado se fosse a um espetáculo e só ouvisse as outras músicas. Claro que iria gostar e ia agradecer, mas eu queria ainda mais ouvir aquelas que mais esperava e gostava.

Tem uma música mais recente com o cantor Ivan Lins…
Essa é, de facto, a canção mais recente, porque faz parte do último disco, ‘Boa Hora’. Foi uma canção que compusemos em parceria.

Foi fácil concretizar esse trabalho vosso?
Sim, nós somos amigos há muitos anos. Às vezes, o entendimento musical pode não existir, mas temos um entendimento pessoal muito bom. Houve uma conversa há muitos anos em que lhe pedi para escrever uma música para mim. Passados outros muitos anos, o Ivan entregou-me metade da letra de uma canção para eu escrever o resto. No final de contas, acabámos por fazer uma parceria plena.

‘Boa Hora’ foi um disco de ‘renovação’?
Esse disco também foi apanhado pela pandemia. Acaba por ser um trabalho muito recente e quando me perguntam de quando é, mostro-o como se ele tivesse sido feito agora. Embora goste muito de trabalhar na continuidade e ir crescendo com aquilo que faço, houve um momento em que senti que tinha de olhar para mim e enfrentar a página em branco que tinha de outra forma. É um disco de renovação, sim. O disco não era para ser um dueto, de todo, as coisas foram acontecendo de forma natural. As músicas iam sendo feitas e eu pensava que ficariam ainda melhor com outras pessoas – por exemplo, quando convidei o Carlos do Carmo, que também participou no ‘Boa Hora’.

As suas canções marcam gerações. Isso torna-o mais responsável quando pensa num novo tema ou álbum?
Não. A honestidade e franqueza para comigo, aliada ao facto de gostar do meu trabalho, para mim é fundamental. É muito bom ter clareza e limpeza de espírito em relação àquilo que está feito. E sei que do outro lado o público sente isso, goste-se ou não.

O que me torna mais responsável é sentir que tenho de ser, obrigatoriamente, honesto comigo mesmo

O Luís fez parte dos ‘Trovante’, uma banda marcante na música portuguesa. Quando decidiu seguir uma carreira a solo, foi por vontade própria ou por necessidade?
Foi pelo que foi acontecendo ao longo do tempo. Naquela altura houve uma saída do grupo – do ‘Gil’ [João Gil], do Artur [Artur Costa] e de outros membros da banda – e fiquei eu, o Manuel Faria e o Fernando Júdice. Fomos nós que decidimos levar o grupo para a frente. No entanto, chegámos à conclusão de que as coisas não faziam sentido. Já não era o ‘Trovante’ e sim outra coisa totalmente diferente – embora cantássemos as canções da banda. Ficámos num impasse, não sabíamos se haveríamos de desistir ou não. Percebemos que, assim como chegámos ao ‘Trovante’, não deveríamos arrastar e deixar o grupo degradar-se. Não queríamos que o seu acervo e todo o trabalho que foi feito durante todos aqueles anos sofresse um desaparecimento doloroso e decadente. Portanto, decidimos deixar o grupo ‘fresquinho’ e acabar com tudo. Nesse momento houve necessidade de pensar mais em mim e no que iria fazer futuramente. Isso deixou-me durante algum tempo angustiado e comecei a fazer canções. Foi com essa mala de músicas que falei com o Pablo Milanés [cantor e guitarrista cubano], fui para Cuba trabalhar com os músicos dele – com o Miguel Nuñes [pianista] e outros músicos fantásticos. Foi nessa altura que apareceu o primeiro disco: ‘Represas’, em 1993, um nome muito original de facto. [risos]

Já são mais de 40 anos de carreira. Ainda tem muitas histórias para contar?
Sim, de repente lembro-me de umas e depois lembro-me de outras, mas há muitas histórias realmente. Há uma coisa que eu prezo imenso que é a junção entre a característica humana do músico e a sua qualidade enquanto músico. Tenho tido a enorme felicidade de poder parar e conhecer gente extraordinária, de vários países, com estas duas características.