O espelho devolve-lhes a imagem de um corpo que transborda. Lidam todos os dias com o olhar do outro, que julga sem questionar e profere sentenças sem receio de ferir. São condenados sem hipótese de recurso e recordados a cada passo que, afinal de contas, só é gordo quem quer.

Angelina de Sousa tinha 30 anos quando os ponteiros da balança lançaram os primeiros alertas. Problemas hormonais e duas gravidezes levaram-na aos 170 quilos. O corpo foi deixando de lhe obedecer e tarefas simples do dia a dia, como vestir-se ou caminhar, pouco a pouco tornaram-se tudo menos simples. Deixou de conseguir vestir calças, calçar-se, estar de pé provoca-lhe dores na coluna e caminhar é aos bocadinhos, como alguém que aprende a andar.

Obesidade mórbida define-se pelo índice de massa corporal superior a 40 kg/m2

Ao longo dos anos, foi aprendendo também a lidar com o preconceito: “Quem se senta nos transportes levanta-se, quem me vê ri, há quem me diga para pagar dois bilhetes, há quem me diga porque é que não fecho a boca, as pessoas perguntam se eu não tenho pena de mim, se não tenho amor próprio. As crianças olham e perguntam: ‘Mãe, como é que essa senhora é tão gorda assim?’”

Deixou de poder trabalhar, desenvolveu problemas respiratórios que a impedem de dormir e os magros rendimentos não lhe permitem seguir as dietas rigorosas impostas pelos nutricionistas. “Os médicos explicavam-me o que comer a cada refeição, só que quando não se tem recursos, não se pode fazer tudo como eles dizem. O que se tem em casa, é o que se vai comendo. Há dias que nem janto, tomo só chá…”, afirma. A maior preocupação é ter comida na mesa para alimentar os dois filhos, sendo que o mais velho apresenta já tendências para a obesidade. 

Existem três grandes tipos de cirurgia bariátrica: banda gástrica, sleeve e bypass gástrico 

Angelina integra uma longa lista de espera para ser submetida a uma cirurgia bariátrica. “Nunca fui assim, mas as coisas aconteceram e eu não posso cortar e deitar fora. Há de chegar a altura em que hei de voltar ao meu corpo normal”, diz, esperançada.

“Ninguém aguenta dieta a vida inteira”

Carlos Oliveira tinha 46 anos quando tomou a decisão de colocar uma banda gástrica, com a qual partilhou refeições e a vida durante mais de 15 anos.

“Eu brincava, dizia que não tinha gordura no sangue, não tinha colesterol, porque guardava a gordura toda na barriga. Aos meus 46 anos disparou tudo, e foi quando eu percebi que tinha de fazer alguma coisa e o fazer alguma coisa não teve a ver com dietas, porque dietas para tentar perder peso eu já tinha feito. Mas ninguém aguenta uma dieta rigorosa para perda de peso a vida inteira”, considera.

O endocrinologista Miguel Vasques de Carvalho corrobora a ideia de que as dietas a longo prazo não são eficazes. “Uma dieta rigorosa e restritiva a longo prazo efetivamente não é um bom plano. Ninguém tem uma dieta muito restritiva a longo prazo, não funciona. Prefiro pensar em abordagem pela dieta, consigo organizar o tratamento na obesidade entre abordagem pela dieta, abordagem com medicamentos e abordagem cirúrgica”, refere.

Depois da cirurgia, Carlos teve de aprender a viver com um objeto estranho no estômago, que o ajudou a perder peso até estacionar nos 100 quilos. Ao fim de quase duas décadas de convivência, a banda começou a trazer problemas. Foi então retirada e Carlos submetido a um bypass gástrico: A banda começou a fazer um desgaste na base do esófago. Teve de ser totalmente aberta, pois não estava a fazer nada. Optámos por transformar a banda num bypass”.

Na obesidade existe um boicote ao trabalho dos neurónios que libertam um químico para ajudar a perder peso

De acordo com Miguel Vasques de Carvalho, as bandas gástricas apresentavam pouca eficácia a longo prazo. “Tinham imensos problemas, infeções locais, moviam-se e deslocavam-se, deixando de fazer a restrição. Tinham pouca eficácia a longo prazo. Havia uma perda inicial e depois as pessoas acabavam por recuperar o peso”, explica o médico.

No entanto, desengane-se quem pensa que a cirurgia, só por si, faz milagres.

“A pessoa vai ter uma vida totalmente diferente, mais complicada. É muito bom para quem está com obesidade mórbida perder peso, conseguir controlar-se, equilibrar-se, mas deixa de fazer a vida de antigamente, não é a mesma coisa”, lamenta Carlos.

O endocrinologista refere que o impacto do bypass gástrico é muito grande e que os sintomas adversos da cirurgia passam por náuseas, pirose, azia e uma sensação de mal-estar intestinal quase constante.

Obesidade como problema biológico

Denise Sousa tinha 27 anos quando reuniu coragem para fazer um sleeve gástrico. “As náuseas, as dores, o desconforto, a alimentação… O que fui fazer à minha vida, que ideia estapafúrdia me foi dar, porque fiz isto? Dois dias depois pensei: ‘Não quero, eu quero voltar ao que era. Não quero nada disto para a minha vida”, desabafa.

Com excesso de peso desde criança, era ainda adolescente quando consultou o primeiro nutricionista, mas os médicos nunca souberam explicar a razão pela qual a balança não lhe dava tréguas.

Diabetes, hipertensão arterial, enfarte do miocárdio, AVC e doença renal crónica são alguns problemas derivados da obesidade

“Se calhar a minha genética está predisposta para eu ser gordinha, para ser gorda, para ser obesa. Este desenrolar de situações levaram-me ao que eu cheguei a ser e ainda hoje sou, mas o que não sabemos, os médicos não sabem, não há justificação”, afirma.

É do senso comum que alimentação saudável e exercício físico são dois fatores essenciais para um corpo magro e saudável. Mas poderá haver algo mais a influenciar a perda de peso? Para a neurocientista Ana Domingos, os fatores genéticos são os que mais influenciam o peso. A leptina é uma hormona que informa que já existe gordura suficiente e faz o cérebro ativar neurónios para queimar a gordura. Na obesidade, existe um boicote ao trabalho dos neurónios que libertam um químico para ajudar a perder peso.

“No caso da obesidade, em que existe a resistência à leptina, estamos a estudar quais os mecanismos para essa resistência. Descobri que não só existem neurónios que controlam a glândula que produz a leptina, que é o tecido adiposo, como existem também células do sistema imunitário que controlam a atividade desses neurónios. Talvez a obesidade não seja um problema do controlo voluntário do comportamento, mas um problema biológico”, defende a neurocientista.

Quase metade da população portuguesa tem excesso de peso e cerca de um milhão de adultos é obeso. Portugal é um dos países da União Europeia com maior taxa de obesidade e, de acordo com as estatísticas, mais de 20% da população mundial será obesa em 2025.

Mais de um ano depois de ter sido operada, Denise ainda não reconhece como seu o reflexo no espelho e traz bem presentes as dificuldades que se seguiram à cirurgia. “Passei mal, chorei, deprimi, cheirava-me a comida e eu só dizia que queria comer… O paladar não é o mesmo, a comida a cair no estômago não é a mesma coisa, beber água à refeição não se pode… uma série de coisas que mudaram drasticamente na minha vida. A nível psicológico também não é nada fácil, nós estamos habituados a um corpo gordo e passamos a ser uma pessoa que está a ficar flácida, porque está a emagrecer. As pessoas pensam que vão fazer a cirurgia e vai ser brutal, vão emagrecer e poder comer tudo… não. Sentimo-nos mal, vomitamos, temos cólicas… o que é positivo? Nada, só mesmo perder peso. Mas para uma pessoa que se aceitava enquanto gorda até que ponto é que o perder peso é positivo?”, questiona.

Portugal é um dos países da União Europeia com maior taxa de obesidade

Muitos anos se passaram até conseguir aceitar o corpo que carregava. Passou demasiado tempo a ser o próprio carrasco, diminuída pela vergonha e incapaz de reagir ao preconceito que ela mesma tinha criado: “Acabei por fazer o meu próprio bullying. Houve uma fase da minha vida que me isolei, porque não me aceitava tal como eu era. Tinha vergonha do meu corpo, vergonha de sair, de ir à praia, de vestir roupas com cores, vestia-me só de preto… foi uma fase negra”.

“Tratamento da obesidade é para a vida”

‘Roupa XXL autoestima XS’ é a página de Facebook que começou por ser um espaço de partilha e desabafo e serve agora para ajudar dezenas de pessoas que sofrem de obesidade.

“A minha vida naquela página é contada por fotos, onde é que eu cheguei, fui mostrando a evolução da Denise que vestia um 58, 60, 62 para a Denise que veste um 48. A diferença é abismal e é isso que eu quero mostrar às pessoas. Se eu consegui vocês também conseguem”, encoraja.

Os olhares, de incredulidade ou até mesmo de repulsa, conseguem ser mais ruidosos do que muitas palavras e são presença assídua na vida de um obeso.

“Fui a uma loja de roupa e perguntei se tinham tamanho para mim, uma camisola que supostamente era um vestido para gente magra, mas para mim era uma camisola. A senhora olhou para mim com ar de escárnio, do estilo ‘O estás a fazer? Tu não vais caber aí dentro!’ As próprias pessoas com o olhar matam. Fixam o olhar, um olhar discriminador, repugnante, do estilo ‘O que é isto? De onde é que tu vens?”, recorda.

Mais de 20% da população mundial será obesa em 2025

Excesso de peso, obesidade, obesidade mórbida. Trata-se da epidemia do século XXI, mas traz ainda desconforto aos olhos e às palavras. Multiplicam-se os episódios em que Denise se sentiu diferente.

“Sentar-me num banco do autocarro e ser olhada de lado, do estilo ‘Tu não vais ocupar um lugar, vais ocupar dois…’ Viajar com colegas e perceber que o cinto do avião não me dava a volta e ter de pedir um acrescento… Olhar para uma porta de um café e pensar como é que eu vou caber ali ou qual a estratégia que vou utilizar para me sentar naquela cadeira que tem dois braços e o meu rabo não vai caber lá… As pessoas olham para os gordos de uma forma diferente, têm receio de usar a palavra gordo… Custou-me muito a primeira vez que ouvi que já estava na obesidade mórbida”, desabafa.

Denise perdeu já 60 quilos. Entretanto, vai lambendo e celebrando as feridas, enquanto se habitua à nova pessoa que lhe habita o corpo: “Enquanto gorda, a pessoa tem o corpo cheio, não há nada a mexer. A pessoa anda e está ali tudo fixo no lugar… Neste momento não, a pessoa anda e mexe o braço, a perna, o rabo, tudo mexe. Já há alguma ferida para contar a história. Olhar para a barriga, ver a cicatriz, são tudo marcas de guerra, mas aceitar ainda não é fácil”.

“A célula onde é guardada a gordura, o adipócito, para morrer, ou seja, se uma pessoa perder peso, ele encolhe, mas para morrer são vários anos que são necessários. A gordura vai-se tornando mais resistente a ser destruída, daí que o tratamento seja tão difícil. O tratamento da obesidade é para a vida”, explica Miguel Vasques de Carvalho.

Cicatrizes, pele flácida, marcas de guerra que fazem parte da luta de um obeso, daquela que acaba por ser a luta de uma vida. Porque, afinal de contas, ninguém é gordo porque quer.

FONTE© Mart Production, Pexels