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Todos os anos, em outubro, as portas do lagar voltam a abrir. A partir daí a azáfama regressa às ruas estreitas da Pia do Urso, no concelho da Batalha. A aldeia rústica e simpática começa a ficar mais barulhenta com as camionetas dos produtores que já sabem de cor o caminho para o lagar.

Abrir as portas significa muitas vezes não comer e não dormir para não parar processos. É assim desde que se lembra. Zulmiro Pedro assume-se como lagareiro, aquele que produz azeite, “com amor” – acrescenta à definição do dicionário.

Zulmiro Pedro nasceu no meio do lagar e não se imagina a fazer outra coisa.

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Zulmiro Pedro é produtor de azeite em Pia do Urso, no concelho da Batalha | © Record TV Europa

“Só houve um ano em que não produzi azeite porque estava na guerra. Vim de lá ferido e estive no hospital a recuperar. Foi o único o ano em que não produzi azeite. E vou continuar aqui até ter saúde para continuar a ajudar os meus clientes, que já me conhecem há muitos anos”, conta.

Este último ano, 2022, não foi bom em azeite. Talvez até possa mesmo dizer-se que foi muito mau.

“Não houve quase azeitona, e a que havia era má. O azeite é pouco e fraco. Mas já o meu avô dizia que a seguir a um ano muito bom vem um mau. Foi 2022, sem dúvida”, desabafa Zulmiro Pedro

Enquanto produz o azeite de forma artesanal vai recebendo clientes antigos e revisitando outros tempos e muitas colheitas.

Quem procura o lagar da Pia do Urso sabe que entrega a azeitona para limpeza da folha e que umas horas depois pode recolher o azeite já pronto a consumir.

“Tenho muitos clientes que ainda acham que eu só de olhar para a azeitona sei quantos litros vai dar, mas não, só mesmo depois de as transformar”, explica.

De há uns anos para cá Zulmiro gere o lagar que herdou do avô, mas foi também mestre de lagar em terras vizinhas. Admite que não sabe bem viver sem este ofício.

“Vou continuar aqui até conseguir. Tenho muito orgulho em ser lagareiro e em dar seguimento ao que o meu avô e o meu pai me ensinaram. Fomos todos combatentes, já os perdi a todos e resta-me continuar com isto também em memória deles”

As palavras de Zulmiro Pedro ilustram uma vida passada à volta do azeite. Embora esperançoso que a próxima campanha seja melhor, o produtor – que é de lágrima fácil – desabafa, enquanto sela mais um garrafão de azeite pronto para entregar na manhã seguinte.

FONTE© Envato