Zidane Monteiro tem 22 anos. É natural do bairro Fim do Mundo, em Cascais. Assim que ouvimos o nome deste jovem é quase impossível não nos lembrarmos do antigo jogador francês e ex-treinador do Real Madrid. E a verdade é que o nome escolhido pelo pai foi em homenagem ao futebolista.

Coincidência ou não, Zidane Monteiro prefere deixar o futebol para os outros. Ele prefere o muay thai, uma arte marcial com origem tailandesa. Chegou por acaso ao desporto de combate, que se tornou uma boia de salvação na sua vida.

“Quando comecei não tinha objetivos, não tinha nada. Às vezes treinava, outras vezes não e não tinha alguém que puxasse tanto por mim. Frequentava uma escola aqui perto e o Duba ia lá ver como nós nos portávamos e eu andava perdido naquele momento”, confessa Zidane.

Fintar o destino
Zidane Monteiro | © Record TV

O Duba que Zidane fala é um caso de sucesso de um bairro social. Um exemplo de como é possível fintar o destino e vingar na vida. José Duba Barradas foi campeão da Europa de muay thai, em 2007, e soma outros tantos títulos. Nascido e criado em Cascais, no bairro da Cruz Vermelha, Duba decidiu criar um projeto que ajuda a promover a inclusão dos jovens e crianças mais desfavorecidas. E foi assim que em 2019 nasceu o ‘Cascais Fight Center’.

Fintar o destino
José Duba Barradas | © Record TV

“Na verdade, eu replico um pouco toda a minha história de vida aqui neste projeto. Tive a sorte de ter um mestre que me encaminhou no meu percurso desportivo. Eu ampliei e repliquei esses ensinamentos com miúdos do bairro. Consegui encontrar no desporto uma maneira de usar tudo aquilo que o quotidiano de um bairro social me oferece para me conseguir superar diariamente. Os desportos de combate têm uma semelhança muito grande com a vivência num bairro social. Desde ter de amadurecer mais rápido do que normal a ter de aprender a lidar com os problemas diários, e acabamos por nos sentir confortáveis com eles”, refere Duba.

Formar vencedores para a vida

São cerca de 40 os jovens e crianças que são ajudados pelo ‘Cascais Fight Center’. Duda refere que o objetivo não é formar campeões do desporto, mas, sim, mudar rumos e torná-los campeões nas suas próprias vidas.

 

Na vida destes miúdos nada é conduzido numa linha reta, um dia o pai não está cá, outro dia só a mãe é que cuida, se não é a mãe que cuida é o pai ou a avó. O pai pode estar preso, um dia e mãe chegar tarde da discoteca e não levar o miúdo à escola.

“E se eles conseguirem competir colhem muitos mais frutos por terem um desafio muito grande, porque a competição dá-lhes isso. Nós não queremos que eles sejam apenas atletas. Queremos que eles consigam retirar todos os benefícios da modalidade e deste convívio connosco, e usem isso no dia a dia. Aplica-se a todos, a quem quer ser cozinheiro ou a quem quer ser cantor”, explica Duba.

Para ele, a maior dificuldade destas crianças e jovens “é a disciplina” e há “muita dificuldade em que sejam regrados. Muitos miúdos que vêm a pé, vêm um dia e já não vêm no outro. Há um dia na sala que eu tenho facilmente 20/30 atletas, no outro dia atenho 15.”

Assim como Zidane, Diogo Cassandro foi descoberto por Duba. As más escolhas e os problemas em que se metiam foram um sinal de alerta para o ex-atleta. “Eu era irrequieto, nervoso em tudo o que fazia e então acabava por descarregar a minha raiva em cima das pessoas”, diz Diogo Cassandro.

‘Chutar’ as dificuldades

De Cascais seguimos à descoberta de outro projeto de inclusão. Paramos no bairro Padre Cruz, em Lisboa. Aqui também se prepara jovens através do desporto para os desafios da vida adulta.

Ana Naya, treinadora, explica que “no futebol de rua são trabalhadas as competências sociais e pessoais nos jovens. A parte física também é trabalhada, mas é a menos importante”.

Fintar o destino

O ‘Bola pr’a Frente’ nasceu em 2010. É o projeto base e mais antigo da Associação Nacional de Futebol de Rua. Com ele foi iniciada a intervenção social e comunitária no bairro Padre Cruz.

“Infelizmente, há aqui uma série de problemáticas presentes nas comunidades que não se mudam tão rapidamente numa década. Uma muito relacionada com o sucesso escolar – e com a aquisição de competências que facilitem a aprendizagem – e o insucesso escolar. E outra com o objetivo ligado à questão da definição dos projetos de vida para os jovens que entretanto saem da escola, procuram o primeiro emprego e têm de se inserir no mercado de trabalho”, refere Ana Paula, representante do projecto ‘Bola P’ra Frente’.

A partir do momento que se aperceberam que isto faz bem e que os filhos são bem acolhidos, os pais – e o bairro -integraram-nos quase como uma família.

Quando a iniciativa foi posta em prática o grande desafio foi captar as crianças e jovens. Apesar de ser um espaço aberto à sociedade e gratuito, integrar-se num bairro social é sempre um desafio. Ana Paula conta que quando chegaram ao bairro “há 10 anos, com um saco de bolas e um apito na mão, ninguém nos conhecia. Não foi muito fácil porque viram-nos um bocadinho de lado. Mas foi um processo espontâneo e naturalmente começaram a aproximar-se.”

Vontade não escolhe idade

Mas como há sempre exceções à regra, o caso de José Issac foi bem diferente. Hoje tem 17 anos e desde que se lembra a associação faz parte da vida dele. “Eu via o pessoal mais velho ir para a associação. Ainda não era tanto para crianças, era mais para jovens e eu não podia entrar. Só quando tivesse 12 anos. Todos os dias ia à porta pendurava-me nas grades e dizia ‘deixem-me entrar’ e as vezes ia assistir aos treinos do futebol de rua”, conta.

Fintar o destino

É esta vontade que os técnicos do ‘Bola P’ra Frente’ querem que os jovens e as crianças sintam. Uma segunda casa e uma família que estará lá sempre para o que precisarem.

“Eles têm falta de carinho, de amor. Às vezes, basta um simples abraço ou um ‘calma esta tudo bem’. Conheço-os a todos. Sei o primeiro e último nome de todos os jovens que estão inscritos. Sei, principalmente pelo andar, quando é que eles estão bem ou não”, confessa Ana Naya.

Por ser do bairro Padre Cruz, Ana Naya consegue perceber as dificuldades e os desafios que estas crianças enfrentam diariamente. A treinadora desabafa que “às vezes chego a casa e desato a chorar porque sinto-me impotente. Faço o meu trabalho, mas eu não sou a família daquele jovem. Eles vão para casa, a porta fecha e eu não sei o que pode acontecer”.

 

Ensinamentos para a vida

A chegada, em março de 2020, da pandemia de covid-19 teve grande impacto nas vidas das pessoas. Mas para estas crianças e jovens foram tempos de grande sofrimento. Para muitos, as associações onde são acompanhados são um autêntico suporte, a nível escolar e pessoal. E o peso dos vários confinamentos fez-se sentir.

“Não foi fácil porque de repente saímos do bairro e houve de facto um distanciamento pessoal. Fomos para casa em teletrabalho e posso dizer que foi ainda mais desgastante, porque se presencialmente no terreno não há horários, então online é que não havia mesmo”, desabafa Ana Paula.

Fintar o destino

Também Duba sentiu muitas dificuldades, mas continuaram com as “dinâmicas de nutrição”. O nutricionista do clube fez palestras “de como comer na pandemia, especialmente para os atletas de competição que não podiam disparar o peso”.

Mas a verdade é que estas dificuldades estreitaram laços e tornaram as ligações mais fortes. Porque apesar de todas as adversidades que estas crianças e jovens vão encontrar na vida, vão levar sempre o apoio, nem que sejam as palavras ditas durante um treino, daqueles que um dia fizeram parte da sua família. Atrás do sucesso estará a persistência e a superação que os jovens e as crianças conseguiram ter para ‘fintar o destino’.

FONTE© Record TV