O autor do livro ‘A revolução do algoritmo-mestre’ interessou-se pela aprendizagem automática há mais de 20 anos e acredita que vivemos um período tecnologicamente revolucionário sem precedentes, com claros benefícios para a Humanidade.

Há uns tempos, Putin afirmou que a potência mais poderosa será a que dominar a inteligência artificial. Estamos já a viver uma ‘corrida à IA’, tal como houve ao Espaço?
Estamos e o principal protagonista além dos EUA e da Rússia é a China, mas muitos outros países estão envolvidos: Reino Unido, França, Israel, etc.

Qual é o país que está mais próximo de encontrar o algoritmo-mestre, aquele que será capaz de aprender qualquer coisa?
Os EUA.

Como está a investigação da IA em Portugal , face ao que acontece noutros locais do mundo. Estamos atrasados ou somos ‘passageiros do comboio da frente’?
Portugal tem uma comunidade científica importante nesta área, maior do que se suporia dada a dimensão do país. E vamos à frente desde os finais dos anos 1970, quando a IA era ainda pouco investigada, mesmo nos países tecnologicamente mais avançados. Nessa altura, existia já um número significativo de investigadores em Portugal.

Há alguma forma de passar para uma máquina o célebre ‘desenrascanço’ português, aquela forma sempre original de reagir a um problema ou adversidade?
Sim. Eu diria mesmo que a aprendizagem analógica se pode caracterizar como sendo o ‘desenrascanço’: pouca preparação com antecedência e improvisação no momento para compensar. E, ironicamente, este tipo de aprendizagem é muitas vezes mais poderoso do que os métodos do tipo ‘não deixes para amanhã o que podes fazer hoje’.

Pedro Domingos
Pedro Domingos | © D.R.

Se um algoritmo-mestre for inventado, será possível que a Humanidade se torne sua escrava, no duplo sentido de podermos ficar dependentes dos seus benefícios e de sermos obrigados a submeter-nos ao poder das máquinas?
No primeiro sentido, sim, da mesma forma que já estamos hoje dependentes de muitas tecnologias, desde a eletricidade até à Internet e aos telemóveis. No segundo sentido, é pouco provável, porque as máquinas, por mais inteligentes que sejam, apenas procuram atingir os objetivos que lhes damos. Claro, se tivermos a má ideia de lhes darmos como objetivo dominar-nos, pode ser que o façam. Mas o perigo maior é que seres humanos dominem outros através das máquinas.

Quem deverá ter o poder de decidir o que fazer com a aprendizagem automática e escolher qual o tipo de informação que se deve introduzir?
Cada utilizador individual: da mesma forma que o meu computador faz o que eu lhe mando, a aprendizagem automática, quando invocada por mim, deve fazer o que eu lhe mando. No entanto, o que acontece hoje em dia é que a aprendizagem automática é controlada principalmente pelas empresas.

Na indústria, em geral, um produto que resulte de uma investigação inovadora é protegido da concorrência por uma patente. Um algoritmo-mestre é patenteável?
Sim, e alguns dos principais atuais algoritmos de aprendizagem foram patenteados por empresas. Mas essas patentes tiveram pouco efeito, porque é fácil evadir patentes de software criando algoritmos que fazem aproximadamente a mesma função, mas são suficientemente diferentes dos patenteados. E provavelmente o mesmo sucederá com o algoritmo-mestre.

A descoberta de um algoritmo-mestre será a grande revolução do séc. XXI. A acontecer poderá dar origem a outras revoluções?
Sim, por exemplo a cura do cancro, os robôs domésticos e, em última análise, uma sociedade em que ninguém precisa de trabalhar.

Com este novo facilitador de vida, será que os humanos poderão ficar mais preguiçosos e a inteligência humana global recuar, no sentido de ficarmos mais inativos e menos dispostos à aprendizagem?
É possível, mas o importante não é a inteligência humana por si só, mas a inteligência humana amplificada pelas máquinas. Se não preciso de me lembrar de coisas porque as posso pesquisar na web, pode parecer à primeira vista que fiquei mais estúpido, mas na realidade libertei o meu cérebro para se preocupar com coisas mais importantes, portanto fiquei mais inteligente.

Entrevista Pedro Domingos
A revolução do Algoritmo Mestre | © D.R.

 

Livro inovador

Pedro Domingos leva o leitor numa viagem à descoberta do algoritmo-mestre, um sistema capaz de aprender qualquer conhecimento desde que sejam introduzidos os dados necessários.
Bill Gates aconselhou a leitura deste livro a quem quiser saber mais sobre inteligência artificial, uma área da ciência que vai permitir novas soluções para problemas antigos.

O algoritmo-mestre tem, tal como os humanos, a capacidade de aprender, embora com uma capacidade de armazenamento e de processamento de informação virtualmente infinita. Como se ensina a uma máquina aquilo que é mais dificilmente inteligível, como as emoções, os valores, o nosso lado não racional?
Da mesma forma que se ensinam outras coisas: deixando as máquinas observar-nos e imitar-nos. E na realidade já se começa a aplicar a aprendizagem automática às emoções, valores e comportamentos irracionais.

Disse que um algoritmo-mestre tem de ser alimentado com dados e com objetivos. Esses dois factores, funcionando de forma interligada, diminuem o risco de a conclusão não ser desajustada em relação ao pretendido?
Sim. Quanto maior a quantidade de dados e melhor especificados os objetivos, menor o risco de desajuste. Além disso, os algoritmos precisam de ter senso comum, que também pode, em princípio, ser aprendido a partir de dados – e há já investigação nesse sentido -, mas é um problema muito difícil.

Na área do emprego, a inteligência artificial poderá, simultaneamente, substituir muitas das atividades desempenhadas atualmente por humanos, mas também poderá criar novas funções e profissões. Pode dar exemplos?
Por exemplo, quando os computadores compreenderem a linguagem natural, qualquer pessoa poderá programá-los, sem necessitar de conhecimentos aprofundados de engenharia informática. Isto levará provavelmente ao surgimento de uma vasta gama de novas aplicações, limitada apenas pela nossa imaginação.

Numa sociedade futurista, em que o algoritmo-mestre trabalha no lugar das pessoas e as pessoas ocupam o seu tempo com as coisas que mais gostam de fazer, será que o acesso ao modelo mais perfeito e atualizado é o que vai traçar a fronteira entre ricos e pobres?
Possivelmente. Mas o mais provável é que o algoritmo-mestre seja utilizado em grande escala, igualmente para todos os utilizadores, da mesma forma que já fazem hoje as grandes empresas de tecnologia como a Google, a Facebook e a Amazon. A curto prazo, as novas tecnologias tendem a dar acesso às inovações aos ricos antes dos pobres, aumentando a desigualdade, mas a longo prazo dão acesso a todos, diminuindo-a.

FONTE© Kindel Media, Pexels