Na data em que se celebra o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro conheça o testemunho de coragem de Soraia Quaresma. Ela encarou de frente o diagnóstico de um cancro raro e contou, pela primeira vez, a sua história de superação à ‘Share’.

“Ele pediu para que me sentasse e disse: ‘Já chegou o resultado da biopsia do que lhe foi retirado e isto é um melanoma maligno’. Naquela altura só ouvi a palavra ‘maligno’, não ouvi mais nada… O que ele disse primeiro, depois, o que era, o que não era, já não ouvi nada. Pensei logo que ia morrer”, foi assim que Soraia Quaresma recebeu a notícia devastadora de que tinha um cancro e em estado muito avançado.

A jovem foi diagnosticada com um melanoma do canal anal. A oncologista Daniela Macedo revela que é um tumor muito pouco frequente. “É um cancro raro, não é dos mencionado nas estatísticas grandes, como o tumor da mama, cólon, pulmão, próstata ou gástrico. O cancro do canal anal é muito residual, diria que se calhar representa 2% ou menos dos casos que são diagnosticados em Portugal”, explica.

E acrescenta: “É um tumor que pode estar, ou muitas vezes está, relacionado com uma infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV), tal como acontece com os tumores do colo do útero. Muitas vezes só se manifestam em estado avançado, porque o paciente pode ter retorragias, muitas vezes associadas a hemorroidas. Frequentemente, mesmo que o doente sinta alguma massa mais saliente, pensa que será alguma hemorroida que terá exteriorizado e não propriamente que tenha um tumor naquela localização”.

A notícia que ninguém quer receber

O que é o cancro do canal anal?

É um tumor maligno raro, com diagnóstico difícil. Pode ocorrer na parte externa ou interna do canal anal, localizado entre o final do intestino grosso e o ânus. Este melanoma representa perto de 2% do total de casos de cancro.

 

Fatores de risco:

– Portadores de doenças sexualmente transmissíveis, em especial o HPV (vírus do papiloma humano);

– Idade superior a 50 anos;

– Tabagismo;

– Ingestão insuficiente de fibra alimentar.

 

Sinais de alarme:

– Alterações intestinais;

– Sangramento ou secreções retais;

– Dor, comichão, sensação de pressão ou inchaço na zona do ânus;

– Caroço evidente.

O diagnóstico chegou como uma tempestade, mas a vontade de viver dos seus 27 anos fez com que Soraia Quaresma levantasse a cabeça e fosse à luta.

“Eu pensei: ‘Isto tem cura? Qual é o passo a seguir?’ Estava dormente, tiraram-me o chão. O meu filho ia fazer um ano passado dois dias. Saí dali completamente desnorteada, não conseguia fazer mais nada a não ser chorar, como é óbvio, não sabia qual era o ponto de situação, o que era preciso fazer…”

Soraia ficou em alerta com o aparecimento de uma hemorroida, aparentemente normal, que lhe começou a causar perdas de sangue e infeção depois de engravidar do primeiro filho, em 2013. A médica de família ao início desvalorizou, mas acabou por encaminhá-la para o hospital Garcia de Orta, em Almada.

Lá, foi-lhe feita uma biopsia e o resultado chegou em poucos dias. Rapidamente foi encaminhada para o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, onde começou a fazer os tratamentos.

“Fiz uma eletroquimioterapia, choques elétricos localizados, uma cirurgia para a pesquisa de gânglios – para perceber se estavam infetados ou não… e estavam. O cancro tinha-se espalhado para os gânglios e tive de fazer esvaziamento inguinal. Foi um processo muito difícil. Rebentou, infetou, tive de fazer pensos e tudo, mas acabou por cicatrizar e recuperei”, conta.

Gravidez surpresa

No meio do processo, Soraia casou e – três meses depois da cirurgia de esvaziamento inguinal e contra indicação médica – engravidou novamente.

“Não estávamos à espera, foi outro choque! Já não bastava todo o processo, o desgaste, a recuperação e levei com isto! Foi complicado, chorei muito, porque tinha muita morfina e cortisona no corpo e eu não sabia como a gravidez ia correr. Em outubro, o médico disse para termos cuidado e eu em dezembro apresento-me grávida. Entretanto, não havia vestígios da doença no corpo e o médico deixou nas nossas mãos. Decidimos seguir com a gravidez”, conta Soraia.

“O grande risco de uma gravidez neste processo relaciona-se com a probabilidade de aparecimento de má formações no feto – que até podem ser compatíveis com a vida, mas o bebé pode ser doente com alguma patologia devido à radiação, que não é boa para nenhuma grávida”, afirma a oncologista Daniela Macedo.

Felizmente, Soraia levou a sua gestação avante, tendo apenas diabetes gestacionais. “Consegui ter um parto normal, houve alguns cuidados especiais devido ao esvaziamento, mas o bebé nasceu bem, sem qualquer tipo de problemas, e veio trocar a minha tristeza por felicidade.”

Em remissão há seis anos, a jovem tem de manter a vigilância apertada e as tomografias por emissão de positrões (PET) anuais, uma vez que o seu tipo de cancro também é raro na sua faixa etária.

Soraia Quaresma
Soraia Quaresma e o marido – D.R.

“Ter cancro já não significa morrer”

Ao receber uma notícia destas, o pensamento da morte tolda qualquer um. Mas Soraia não se deixou destruir pelo negativismo associado à doença. “Nós sofremos as dores físicas, mas quem está ao nosso lado acaba por sofrer mais, porque não pode fazer nada – fica impotente e sofre muito. Esmoreci sim, mas eu tenho um grande marido, que nunca me abandonou e sempre me deu o apoio necessário do princípio ao fim.”

O suporte da família e das equipas médicas do IPO foi fundamental para o processo de cura. “Ter cancro já não significa morrer”, desabafa Soraia Quaresma, como mensagem para quem está, neste momento, a lutar contra esta doença.

Ciência: fonte de otimismo

Em tom de alerta, a oncologista Daniela Macedo revela que o cancro “ainda não é a principal causa de morte em Portugal. Vem a seguir às doenças cardiovasculares, mas está muito perto de se poder vir a tornar a principal causa de morte por doença” no nosso país.

Imprevisível, o cancro não escolhe raça, cor, religião, idade, etnia ou sexo. Os mais jovens são cada vez um ‘alvo fácil’ para esta doença.

Daniela Macedo, oncologista
Daniela Macedo, oncologista – D.R.

“O cancro aparece cada vez mais em pessoas mais jovens e não há propriamente uma justificação direta. Podemos pensar em síndromes hereditárias, que afetam pessoas mais novas. Mas na grande maioria dos tumores que têm síndromes hereditárias conhecidas estes representam uma franja de 2 ou 3% dos casos, ou seja, quer dizer que por volta de 97% dos casos são de origem esporádica, ou seja, ocorrem por uma probabilidade igual para qualquer um de nós”, explica a especialista.

Podemos prevenir o aparecimento de cancro? “Há vários fatores que podem influenciar o aparecimento de uma doença oncológica, independentemente de qual seja a causa e há outros que não conseguimos controlar. A idade é um fator de risco importantíssimo e isso não conseguimos controlar. Mas tentar ter um estilo de vida saudável, comer mais verduras, frutas, menos carnes vermelhas, menos alimentos processados, prática de exercício físico, tentar evitar fumar e beber, ter uma vida relativamente sem stresse… Provavelmente isto poderá condicionar a probabilidade de podermos vir a ter algum cancro. Por outro lado, também os métodos de rastreio permitem diagnosticar. A incidência até pode ser alta, mas nós estamos a identificar mais, mais precocemente e a mortalidade não acompanha esta incidência”, conclui Daniela Macedo.

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