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A chapada de Will Smith a Chris Rock na última edição do Óscares, por causa de uma piada do apresentador do evento à mulher do ator, reacendeu o debate sobre os limites do humor. Entre a validação da violência e a constatação de que não pode haver amarras à arte de fazer rir, as redes sociais espelharam de tudo um pouco.

Nilton foi um dos inúmeros comediantes portugueses que reagiram com indignação. Até porque também ele já foi alvo de um episódio semelhante. “Já levei uma chapada de uma pessoa que eu estava a provocar… Foi no Porto, uma cidade onde as pessoas são mais fervorosas. Eu fui ao pé da pessoa e disse ‘eu amo você’ e ele disse ‘vê lá se queres ver a máquina a voar ao rio’. E eu repeti ‘eu amo você’ e ele disse ‘à terceira levas’. Eu insisti e ele cumpriu, nisso foi uma pessoa espetacular, prometeu, cumpriu! Tive de proteger a câmara que levava comigo e levei um chapadão, meio orelha, meio pescoço, que ficou três dias a doer-me!”, conta, a rir, o comediante.

Esclarece que ficou tudo resolvido e entende que, neste caso, foi ele próprio quem não respeitou a vontade de uma pessoa que não queria ser envolvida na piada.

O sentido do humor
Durante umas gravações na rua, Nilton recebeu uma chapada de uma mulher após ter feito uma brincadeira que ela não gostou | © Record TV Europa

“Tragam outra imperial!”

Também Carlos Moura ia sentindo na pele o azedume de um elemento do público depois de uma piada religiosa, não fosse a falta de pontaria uma aliada do humorista. “Eu fiz uma piada com a Nossa Senhora de Fátima e alguém se levantou e disse ‘com isso não se brinca!’ e atirou-me com um copo de cerveja! Mas falhou! O que foi óptimo, porque deu-me a grande piada da noite: ‘estou numa posição elevada e tu falhas? Alguém que traga outra imperial ao jovem porque isto é uma vergonha, não é?’ E ganhei a sala toda na hora. [risos] Mas foi a primeira vez que senti violência por parte do público em relação a uma piada”, recorda.

Há quase vinte anos na comédia, participou em vários programas de televisão, embora nem sempre à frente das câmaras, mas é nos palcos de todo o país, em espetáculos de stand up comedy, que Carlos Moura vai testando os seus textos humorísticos. “Já me vieram uma vez dizer ‘ah, você fez ali uma piada com os vegetarianos, mas é um mito urbano que anda a ser passado, porque alguém que é vegetariano não tem de ter anemia e blá, blá, blá. Às tantas deixei de ouvir, encontrei um ponto de fuga e fui-me embora porque não me interessa nada esse tipo de conversa. Aliás eu até sou quase vegetariano…”

O sentido do humor
O humorista Carlos Moura recorda que num espetáculo já lhe atiraram um copo de cerveja em resposta a uma piada | © Record TV Europa

Normalmente, ele diz que não responde. Não se cansa a explicar que se trata apenas de uma piada. Para Carlos Moura, não há qualquer limite no mundo do humor, até porque, os assuntos que incomodam, são os que fazem refletir ou mudar atitudes. “Nunca sabemos o que pode ser insultuoso para alguém, toda gente tem o direito de se sentir insultado, mas eu acho óptimo que haja comediantes que têm esse efeito nas pessoas. Significa que estamos a tocar em nervuras e que não estamos todos a fazer gelado de baunilha e chá de cidreira, estamos a mexer com as pessoas. Os melhores quadros são aqueles que se amam ou odeiam; as melhores músicas são as que fazem chorar ou rir… Portanto, coisinhas que não mexem com nada, morrem na semana a seguir”, remata.

Limites… só em quem ouve

Conhecido pelos episódios humorísticos de rua mais arriscados, foi também nas brincadeiras através de telefonemas ousados que Nilton foi sendo cada vez mais reconhecido. Para fazer rir, não traça qualquer linha vermelha: “O facto de eu fazer humor, por exemplo, com uma doença, não quer dizer que seja insensível à própria doença. A minha mãe teve cancro, eu fiz piadas com isso e não lhe desejei mal nenhum, simplesmente foi a forma de nós nos rirmos e lidarmos com isso. Os limites do humor estão na pessoa que ouve… Posso ter os meus limites e outra pessoa ter uns completamente diferentes. Não há sequer um limite para o humor, tu podes achar ‘ah, não se pode brincar com isto’, e eu digo ‘então não brinques, mas eu vou brincar’.

Nilton confessa que já sofreu com o constante julgamento público das redes sociais, mas aprendeu a ignorar

A Internet e, em especial, as redes sociais estão cheias de gente que discorda da teoria de um humor sem limites e que faz questão de o dizer. “Eu ponho uma piada nas redes sociais, principalmente quando é futebol – logo eu que nem clube tenho! – e as pessoas são incapazes de ver… primeiro, que aquilo é só uma piada; segundo, que não é contra elas; e em terceiro, de lerem e irem à sua vida! É como eu passar num restaurante indiano e dizer ‘não gosto de comida indiana’ e vou lá para dentro reclamar com o cozinheiro!”, explica Nilton.

Ignorar ou adaptar

A mesma perspetiva é partilhada pelo humorista Carlos Moura: “Os estúpidos fazem muito barulho e, normalmente, quem gosta, gosta e cala-se. Ninguém vai para a rua dizer ‘eu adorei! Eu adorei aquela crónica ontem no jornal’ ou ‘ontem ri-me com aquela crónica na rádio’”.

Mas aprendem a lidar com o constante julgamento público. “Se não gostam de uma piada, não a ouçam, mudem de canal, não ouçam aquele humorista. É assim que se faz e depois o artista tem duas opções ao ver que o seu público diminui: ou ignora e continua a fazer o seu trabalho ou adapta-se”, diz Carlos Moura

Muitas vezes tenho vontade de responder a comentários, mas… vamos combater a ignorância baixando o nível? – questiona Carlos Moura

“Eu já sofri muito com as redes sociais”, conta Nilton, “mas aprendi a não ligar àquele lixo, a rir-me com aquilo, a perceber perfeitamente que aquela pessoa não está bem e tem essa necessidade de descarregar em alguém, não é só comigo, é com toda a gente… Portanto, a única coisa que eu aprendi foi a desfocar e a seguir em frente com o meu trabalho.”

Ter sentido de humor nem sempre é suficiente para achar que todo o humor tem sentido. Mas, antes de se zangar com uma piada, lembre-se que rir… ainda é o melhor remédio.

FONTE© Record TV Europa