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São marcas de quem não foi feliz na hora de ser mãe. São apenas três mulheres que representam tantas outras, de uma realidade ainda por contabilizar em Portugal. Três casos que têm em comum humilhação, agressões verbais, recusa de atendimento e procedimentos médicos que consideram ter sido desnecessários.

“A violência obstétrica é qualquer ato, seja físico ou verbal, que deixe a mulher desconfortável. Isto pode ser encarado como revelador de muita sensibilidade da parte dela, mas não é. Estamos a falar de uma altura que a mulher está muito vulnerável e confia plenamente na equipa com que está a tratar dela”, afirma Carla Santos, representante da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto (APDMGP).

“Tinha o colo vazio”

Tânia Ferreira não planeou a gravidez de Eva, mas tudo corria como previsto. Marcou uma cesariana, mas as águas rebentaram horas antes, altura em que o coração da bebé deixou de bater.

“Foi uma gravidez não planeada, mas aceitámos bem. Ficámos contentes, correu tudo bem durante os nove meses. Tudo mudou no parto. Inicialmente estava tudo normal, as contrações estavam normais, o CTG [n.r.: exame complementar de diagnóstico não invasivo, que tem como objetivo avaliar o bem-estar fetal] estava ligado, os batimentos dela perfeitos, nada que fosse alarmante… Entretanto, ela deixou de ter batimentos. Entrou o médico, o dr. Artur Carvalho, que era quem estava de serviço, e fez-me o parto normal. Mesmo ela sem batimentos…”, conta a mãe.

Sombras do parto
Tânia Ferreira | @ Record TV

A minha filha não foi autopsiada. Só soube passado um ano, quando voltei a engravidar, e a médica pediu-me o resultado da autópsia para despistar algum problema. Só aí é que eu soube que ela não tinha sido autopsiada. Até hoje não tive um papel, um relatório, ninguém me entregou nada…

A mulher, de 31 anos, é mais uma das dezenas de mulheres que sofreram às mãos de Artur Carvalho, o obstetra que ficou conhecido por não detetar malformações graves em fetos durante as ecografias, como caso do ‘bebé sem rosto’. O profissional de saúde não a acompanhou durante a gravidez, mas foi o médico de serviço no hospital de São Bernardo, em Setúbal, no dia em que entrou em trabalho de parto.

Dia 29 de janeiro de 2018. Eva nasceu em paragem cardiorrespiratória. Havia enfermeiras por todo o lado. Quando ela nasceu atiraram a roupa para o chão, tentaram logo reanimá-la, deram-lhe adrenalina, ali ao meu lado. Ela nunca conseguiu, nunca chorou… Já vinha muito debilitada. Diziam para eu a chamar e eu não conseguia. Fiquei em estado de choque.”

Ele [o obstetra] nunca falou comigo. Simplesmente disse que ia fazer o parto… Outros médicos vieram ter comigo, mas não tive uma palavra dele a explicar a razão do sucedido, nada…

A viver um turbilhão de emoções, Tânia recorda o que a marcou no momento em que perdeu o chão. “Quando eu estava a falar com o meu marido levaram-na e nós estávamos a decidir se íamos falar primeiro com a mãe dele ou com a minha. Marcou-me ter de dizer à nossa família que a menina não estava bem, que estava a morrer”, conta, visivelmente emocionada.

Tiraram-me as coisas todas dela. Não sei o que é pior, se chegar e não ter nada dela ou chegar e ver as coisas. A primeira vez que me deitei na cama e estávamos os dois, faltava ali ela. Não conseguia estar ao pé de outros bebés. Víamos um bebé e começávamos logo a chorar… É um processo muito difícil

O marido permaneceu ao lado da menina durante o tempo em que Tânia estava a receber cuidados da equipa médica. O medo e impotência apoderaram-se do casal e, ainda hoje, o companheiro recorda o momento em que a filha olhou para ele.

Contudo, seis horas depois, chegou a derradeira notícia. Eva não resistiu. O casal teve de aprender a viver com o vazio que ocupou o lugar da felicidade, que durava há nove meses.

A seguir, vem tudo aquilo que um pai e uma mãe nunca imaginaram fazer. Nestes casos, os progenitores são obrigados a registar o recém-nascido e a fazer-lhe um funeral. “Escolher a roupinha para ela levar. Vê-la ali… É a despedida, encarar a família, vê-los sofrer, os amigos a sofrerem. Parece um pesadelo, que uma pessoa vai acordar e aquilo não aconteceu.”

Passaram três anos de um momento que jamais esquecerão. Tânia ficou novamente grávida e deu à luz mais uma menina, saudável e cheia de vida, para voltar a dar alegria aos dias da família.

“Foi um filme de terror”

Soraia Roque foi mãe pela terceira vez no dia 10 de fevereiro de 2019. Lucas nasceu às 36 semanas, depois de uma gravidez de alto risco. Ela era diabética, tinha de injetar insulina diariamente e sofreu um descolamento da placenta.

Eles puseram no meu relatório que o meu parto durou oito horas e eu pergunto: se entrei no dia oito com contrações e três dedos de dilatação, como poderá ter durado oito horas se o Lucas só nasceu no dia 10, à uma da manhã?

Sombras do parto
Soraia Roque e Lucas| © Record TV

A mulher recorda o momento em que viu o filho pela primeira vez. Foi como se de um filme de terror se tratasse. Soraia perdeu os sentidos e não se lembra do instante em que o bebé nasceu.

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FONTE© Envato