Jacinda Ardern anuncia demissão

Jacinda Ardern anuncia demissão
REUTERS/Loren Elliott
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“Não tenho mais combustível” informou a Primeira-ministra da Nova Zelândia, que deixa o cargo após seis anos de grandes desafios.

Jacinda Ardern foi eleita em 2017, contava 37 anos e tornava-se na governante mais jovem do país.

Um país aparente calmo como a Nova Zelândia revelaria ser bem mais desafiante do que aparentava, com Ardern a ganhar reconhecimento mundial com a gestão da crise de Christchurch.

O maior ataque da história da Nova Zelândia

A 15 de março de 2019 duas mesquitas eram alvo de um ataque terrorista por parte de um cidadão australiano. Brenton Tarrant, autoproclamado supremacista branco, consumou o crime e foi responsável pela morte de 51 pessoas, a maioria muçulmanos, configurando assim o maior massacre da história da Nova Zelândia.

O ataque, com motivações racistas e discriminatórias, foi amplamente noticiado com a primeira-ministra neozelandesa a enfatizar com as vítimas, mostrando como estas eram parte da comunidade daquele país, ao contrário do responsável pelo ataque.

“Muitos dos que foram diretamente afetados por este tiroteio podem ser migrantes para a Nova Zelândia, podem até ser refugiados aqui. Eles escolheram fazer da Nova Zelândia seu lar, e este é o seu lar”, explicou Ardern na altura.

“Eles somos nós. A pessoa que perpetuou essa violência contra nós não é”, afirmou. “Eles não têm lugar na Nova Zelândia. Não há lugar na Nova Zelândia para tais atos de violência extrema e sem precedentes”.

Apesar de impactante, o ataque em Christchurch não foi a única crise com a qual a Primeira-ministra da Nova Zelândia teve de lidar.

Erupção vulcão White Island

No seu mandato contam-se ainda a erupção White Island, também conhecido como Whakaari. Em dezembro de 2019, o vulcão entrou em erupção matando 21 pessoas, incluindo turistas do Reino Unido, EUA, Austrália, China e Malásia.

A Primeira-ministra marcou uma forte presença durante as operações de resgate, salientando a coragem dos socorristas que prontamente voaram, apesar das condições adversas, para resgatar pessoas encurraladas e em apuros. “Uma decisão incrivelmente corajosa em circunstâncias extraordinárias e perigosas na tentativa de tirar as pessoas”, afirmou na altura.

Pandemia de Covid-19

O ano de 2019 terá sido um dos mais difíceis no mandato da Primeira-ministra, mas nem ela, nem o mundo, estariam preparados para a crise de saúde pública que se avizinhava. Em 2020 chegava o novo coronavírus e a pandemia global de covid-19.

A sua gestão inicial da pandemia, levou Ardern e o Partido Trabalhista a uma vitória esmagadora nas eleições de 2020 mas, com o passar do tempo, as regras apertadas e fortes restrições, como os bloqueios e controlo de fronteiras, originaram uma quebra na popularidade. Jacinda Ardern tem viso muitas vezes visada pelo movimento anti vacinação e outros grupos negacionistas de protesto, muitas vezes ligados à direita populista na Nova Zelândia.

“Não tenho mais combustível”

O cansaço gerado pela gestão da pandemia e crítica daí oriunda terão tido o seu impacto na decisão de Ardern em abandonar a liderança do Executivo neozelandês.

“Estes foram os cinco anos e meio mais gratificantes da minha vida. Mas também tivera os seus desafios – entre uma agenda focada em habitação, pobreza infantil e mudança climática, encontramos um evento de terror doméstico, um grande desastre natural, uma pandemia global e uma crise econômica”, afirmou aquando do anúncio da sua saída.

Jacinda Ardern confessou o cansaço e desgaste do trabalhando afirmando que “não tem mais combustível” para continuar no cargo.

“Saio porque com um papel tão privilegiado vem também responsabilidade – a responsabilidade de saber quando se é a pessoa certa para liderar e também quando não se é. Eu sei o que este trabalho exige. E sei que não tenho mais combustível suficiente para fazer justiça. É simples”, explicou.

“Sou humana, os políticos também são humanos. Nós damos tudo o que podemos durante o máximo que conseguimos. E depois chega a hora. Para mim, chegou a hora”, disse.