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“O respeito para com o próximo é a base de qualquer lar, de qualquer família”

É atriz e não se lembra de alguma vez ter desejado fazer outra coisa. Com duas filhas pequenas e uma carreira agora a ganhar asas, Letícia Almeida encontra sempre tempo para equilibrar família e trabalho, mesmo em plena pandemia.

Pudémos vê-la no papel de Asenate, a esposa de José do Egito, na última fase de ‘Gênesis’ e em ‘A Bíblia’, duas superproduções da Record TV.

Ingressou num curso de teatro aos 13 anos. Nessa altura, já era evidente que queria seguir carreira como atriz?

Até antes. Entrei no curso aos 13, mas na verdade mais nova já dizia aos meus pais que queria muito fazer televisão. Acho que era porque via muita telenovela. A minha mãe sempre foi muito ‘noveleira’. Procurei bastante e finalmente encontrei uma referência de curso de teatro que podia frequentar. Tenho desde criança uma grande noção sobre o custo das coisas… Fui educada assim e o meu pai sempre trabalhou muito. Ele apostou em mim e inscreveu-me no curso de teatro do Tablado, uma referência no Brasil. Comecei a representar aí. Esse contacto inicial com o teatro foi uma experiência incrível.

O que mais a fascina no universo da representação?

O mais incrível é a possibilidade de viver muitas vidas. Sempre tive muita vontade de ser muitas coisas ao mesmo tempo. Queria ser médica, advogada, polícia, veterinária e atriz [risos]… A representação dá-me a oportunidade de ser várias pessoas, várias personalidades e culturas. Por exemplo, a propósito de Asenate, a personagem a que dei vida, levou-me a estudar a cultura egípcia. Noutro trabalho, tive a oportunidade de estudar a cultura libanesa. Isso é muito enriquecedor e acho que é o mais fascinante para mim. 

Quais são as suas maiores referências artísticas?

Um dos meus modelos mais presentes e significativos, para muita gente aliás, é a Fernanda Montenegro. Também tenho um enorme respeito pela Marília Pêra. As duas sempre me serviram de referência, principalmente por serem mulheres. Outro exemplo de trabalho incrível é o de Irandhir Santos. É um ator excelente, extremamente focado, com quem tive a oportunidade de trabalhar. É incrível ver a sua entrega como artista. Independentemente do género, é um artista que me inspira bastante porque é muito completo.

Chegou a estudar com o reconhecido coach André Monteiro. Qual foi a coisa mais importante que aprendeu com ele?

Comecei a estudar com o André, no teatro. Procurei fotógrafos para poder fazer um book para castings e o Lúcio Luna, fotógrafo que conheci na altura e com o qual trabalho até hoje, indicou-me o André Monteiro, que já era professor da Isis Valverde, do Bruno Gagliasso, etc. A partir daí, comecei a ter aulas com ele. Foi como um pai para mim e mudou a minha perceção sobre a carreira. Enriqueceu-me muito. Falamos até hoje. Não nos vemos muito, mas até trocámos impressões sobre o papel que fiz em ‘Gênesis’. Ele é um amigo e um coach que realmente levo para a vida. 

Estreou na TV em 2014, na novela ‘Meu Pedacinho de Chão’, aos 17 anos. Do que ainda se recorda desses tempos?

Lembro-me de tudo. Foi uma novela que me marcou muito, porque além de ser o meu primeiro trabalho, a minha personagem casava com o António Fagundes no final. [risos] O António era o amor platónico da minha avó e ela na altura só dizia “nossa, é uma coisa de outro mundo, a minha neta com o ator que era o galã do meu tempo”. Foi inesquecível.

Como foi a experiência de interpretar o papel de Asenate, em ‘Gênesis’?

A preparação com todos os atores do elenco foi incrível. Estavam todos muito empenhados e com uma energia muito boa. O elenco com quem contracenei é composto por profissionais que se entregam muito e isso é muito importante. Somos muito unidos, gostamos de partilhar, um ajuda o outro… Quando chegávamos a estúdio, estávamos todos ali para fazer o outro brilhar, e isso é o mais importante.

Quais as principais características dela?

A Asenate é parecida comigo em vários pontos. Ela é muito sensível e muito decidida. A minha interpretação começou quando ela ainda era uma menina. Depois, vai-se tornando numa mulher muito corajosa que, naturalmente, também tem as suas fraquezas. Acho que todos as temos, são elas que nos fazem fortes. Ela é parecida comigo nesse sentido. É muito forte e tem essa ousadia. As pessoas não se medem pela força com que batem, mas sim pelo que conseguem aguentar. A Asenate foi rejeitada pelo pai biológico e sentiu-se igualmente desprezada pelo pai adotivo. E por mais que recebesse o amor da mãe, que é sincero e puro, ela viveu com esse sentimento de autocomiseração, de ‘porquê eu’. Nunca vivi isso, mas consigo entender as suas atitudes. Algumas não são boas, mas têm alguma justificação.

Até hoje só interpretou personagens de época. São mais desafiantes?

Acho que o guarda-roupa de época, a cultura, os gestos, a forma de falar, quase tudo no geral, ajuda muito a compor a personagem. Recorre-se aos estereótipos, trejeitos e acrescenta-se na composição. Nesse sentido, acredito que seja mais fácil, porque há mais ferramentas ao dispor.

Como tem sido trabalhar neste contexto pandémico tão desafiante?

Eu tenho bastante cuidado. Tenho duas filhas pequenas, então tenho a maior cautela possível, e acho que não há outra forma de pensar, mesmo com as pessoas vacinadas. Temos de ter esse cuidado. Em ‘Gênesis’, todas as pessoas da equipa estavam a ser muito cuidadosas. Fazíamos o teste cada vez que íamos à Record TV e nas gravações também. Então, no fundo, foi tranquilo, cada um tem a sua responsabilidade e a missão de cuidar não só de si, mas também dos outros.

Gostaria de internacionalizar a sua carreira e de trabalhar noutro país?

Com toda a certeza! Tenho muita vontade, é um dos sonhos da minha bucket list.

Já esteve em Portugal?

Nunca, mas quero muito conhecer. Os meus pais já estiveram e falaram muito bem do país. Tenho amigos que moram em Portugal e toda a gente adora.

É mãe de duas meninas ainda pequenas, Maria Madalena e Maria Teresa. O que tem aprendido com a experiência da maternidade?

Elas mudaram completamente a minha vida em todos os sentidos, inclusive no da representação. Desde que sou mãe, leio as personagens que faço de forma mais madura. Isso refletia-se bem na Asenate. Como tenho o olhar tanto de mulher como de mãe consigo passar diferentes sentimentos para a personagem. As minhas filhas são as coisas mais lindas que me aconteceram. A Maria Madalena, a primeira, mudou completamente a minha vida e continua a mudar a cada dia que passa. A Maria Teresa, a mais nova, veio como uma chavezinha de ouro para a minha história. Elas são lindas.

Teve a segunda filha, Maria Teresa, em plena pandemia. De que forma isso influenciou a sua gravidez? Foi tranquila ou teve mais medo?

Graças a Deus, a pandemia não atrapalhou a minha gestação. Engravidei praticamente no meio da pandemia, então passei grande parte da gravidez condicionada. Mas acredito muito na minha força psicológica e em momento algum me deixei levar pelo medo ou ansiedade. Há, claro, alguns momentos em que passam algumas dúvidas pela cabeça, aflições, medos… Mas, no geral, acho que consegui sair-me muito bem e tive muita ajuda, dos meus pais e do meu marido. Não estive sozinha e isso facilitou muito. Não só o apoio e ajuda física, mas também a ajuda sentimental e emocional.

O que fará questão de ensinar às suas filhas?

O que já faço questão de ensinar, mesmo sendo elas muito pequenas, é a importância de serem bem-educadas. O respeito para com o próximo é a base de qualquer lar, de qualquer família… Educação e respeito é a base de tudo.

Como consegue conciliar a sua carreira com a vida familiar?

Conciliar o lado profissional com o pessoal tem a ver com equilíbrio. Consigo encontrar tempo para as minhas filhas, marido, carreira de atriz, e para o meu trabalho paralelo com a Internet também. Hoje em dia, esta é também uma grande porta, aliás, foi uma grande porta para mim. Consigo conciliar porque, graças a Deus, tenho controlo do tempo. Consigo aproveitar o tempo com as minhas filhas e também aproveito quando estou a trabalhar. Acho que é isso, tento sempre estar inteira no que estiver a fazer.

Lida bem com a popularidade e o assédio dos fãs?

Acho muito engraçado. Muitas pessoas falam comigo na rua ou até na Internet muito por causa das minhas filhas. Acho isso demais! As pessoas têm muito amor pelas crianças e isso acaba por nos conquistar, porque como diz o ditado, ‘quem meus filhos beija minha boca adoça’. Isso é muito encantador para mim. Acho muito boa a oportunidade que a Internet dá às pessoas, às vezes no outro lado do mundo, de terem essa proximidade conosco, de sentirem que nos conhecem, porque nos acompanham todo o dia. Acho isso incrível.

Qual é a sua opinião sobre o impacto das redes sociais?

As redes sociais são um tema muito delicado. Quanto mais nos expomos, mais damos abertura ao outro para opinar sobre coisas que, às vezes, não queremos que opinem. Nesse sentido, acho que é um pouco perigoso e temos de ter muito cuidado. Por outro lado, a Internet em si é um meio que existe para melhorar a vida de muita gente. Em termos de conhecimento, em termos financeiros, é um meio de trabalho. Eu sou um exemplo. Se as pessoas a usarem para o bem, para acrescentar, pode realmente mudar a vida de muita gente para melhor. Agora se nos focarmos na parte má, é destrutiva. É como qualquer coisa na vida. As redes sociais têm um poder muito grande, temos de as saber usar para o nosso bem e favor.

Li que está a fazer um curso de Psicologia. É um plano B para a sua carreira?

Comecei a fazer Psicologia no meio da pandemia, tinha a minha filha dois meses. Pensei ‘é a hora certa’, ela deu-me força, então comecei. Agora estou um pouco a arrastar-me porque com o trabalho e as crianças é difícil conseguir prestar atenção. Mas tenho o objetivo de terminar. Não comecei com a ideia de ser um plano B, a nível profissional, mas é sem dúvida um plano de soma de conhecimento.

É uma mulher muito atenta à alimentação e exercício físico? O que faz para manter a forma?

Nunca gostei de fazer nada [risos], mas estava tudo bem porque sempre fui magrinha. Só que depois de ser mãe, comecei a olhar para mim de uma forma diferente. Punha-me ao espelho e reclamava, tentava fazer alguma coisa e não conseguia. Então conheci um ginásio ótimo perto de casa e encantei-me. Comecei a fazer exercício todos os dias e ganhei uma paixão. Nem sequer é apenas a pensar no lado estético, mas porque gosto mesmo. E quando começamos a ver resultados queremos continuar. Sempre tive uma alimentação muito boa, como de tudo. Claro que, às vezes, saímos da linha, mas tudo bem. Nenhum excesso é bom. E é isso, hoje em dia tenho cuidado com a minha forma e com o meu bem-estar mental e espiritual. Quando estamos focados nos lados espiritual e mental, queremos melhorar tudo e juntar todos.